terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Trecho de Doce Ardor (primeira edição)

Finalmente, está liberado o primeiro trecho de meu livro "Pimenta e Cereja: Doce Ardor", que foi publicado dia 07 de janeiro de 2011! A história da obra já foi publicada aqui no blog. Adquira o livro aqui!

O texto a seguir contém violência, uso de drogas, diálogo maduro e insinuação sexual, não sendo recomendado para menores de 16 anos.    

Este é um trabalho de ficção. Todos os personagens, empresas e acontecimentos retratados neste texto são produtos da imaginação da autora, ou são usados de maneira ficcional.



Prólogo


Ser uma agente secreta não é nada fácil.
Neste momento, Blutig Pfeffer está com suas mãos algemadas à frente do corpo, sendo praticamente arrastada por dois enormes leões de chácara vestidos de preto para dentro de um bar secreto na alameda Lorena. Cada um deles tem uma das mãos agarrada a um de seus braços, e ela ainda não encontrou a tão aguardada brecha para escapar.
O bar fica escondido na edícula de uma padaria que fecha durante a madrugada. Pfeffer se contorceu entre prateleiras de pães, até conseguiu derrubar alguns pacotes, mas os capangas conseguiram mantê-la presa e, assim ela foi forçada a atravessar o quintal.
Havia uma porta de mogno que fazia o bar parecer uma inocente residência. Pfeffer tentou se segurar no batente, mas foi inútil.
Algumas mesas com cadeiras, também de mogno, estavam ocupadas por homens na faixa dos cinquenta anos acompanhados por adolescentes usando minissaias. Alguns bêbados notaram a jovem acorrentada sendo coagida a entrar, mas nenhum deles se deu ao trabalho de tentar ajudá-la.
Pfeffer notou em sua visão periférica uma morena de no máximo vinte anos ajoelhada sob uma das mesas. Um barbudo com a gravata frouxa segurava a cabeça dela sobre sua virilha, e pelos movimentos era possível adivinhar o que a garota fazia.
Pfeffer virou o rosto, enojada. Os capangas começaram a rir.
“Ela é inocente...” o mais alto disse.
“Logo, logo estará boazinha como as outras,” o mais baixo disse, “nada que três doses de heroína não possam resolver.”    

No fundo do térreo, próximo à escada, havia um balcão. Pessoas estavam sentadas com bebidas das mais diferentes cores enquanto um barman trabalhava avidamente.
Entre essas pessoas, havia um jovem angustiado. Ele já estava na quarta dose de cseresznye pálinka¹ (aquele era um dos poucos bares de São Paulo que servia a bebida).
“Egéségedre!”² disse o jovem a um impaciente barman, segundos antes de engolir a dose de uma só vez.
Ele sentiu o efeito do álcool, mas logo em seguida seu entorpecimento foi alfinetado por seu aguçado olfato. Havia um cheiro diferente no ar. Um odor que ele não sentia há anos. Aroma de esperança. Aroma de frutas. O cheiro que ele reconheceria em qualquer lugar.
Surpreso, ele virou a cabeça e viu Pfeffer refém dos criminosos.   
            Blutig Pfeffer é ruiva, jovem e linda. Mesmo assim, nenhum dos capangas de Honório Botelho deu moleza para ela. 
Um deles, o mais alto, acabou de receber uma mensagem de texto do secretário avisando que Botelho deseja ver Pfeffer assim que tiver terminado sua conversa com os representantes do PCC, o que deve acontecer em aproximadamente quinze minutos.
Botelho deseja expandir seu esquema de tráfico de armas para São Paulo, já que no Rio está completamente estabelecido. Para tanto, ele precisa dar dois passos: convencer os líderes do PCC de que seu esquema é eficiente e matar Blutig Pfeffer.
O primeiro passo é bastante simples, pois Botelho tem o dom da persuasão. O segundo tem se provado praticamente impossível, no entanto. Tentativa após tentativa de execução, Pfeffer tem escapado.


1. Bebida húngara feita de cerejas.
2. Interjeição dita na Hungria quando se brinda.

Botelho ainda não conseguiu descobrir se seus funcionários são incompetentes demais, ou se essa garota de vinte e poucos anos é realmente tudo o que dizem. Por isso a ordem dada era de que a jovem deveria ser trazida viva, pois ele desejava ver a lenda com seus próprios olhos.
Pfeffer não sabe que quem a aguarda é Botelho. Ela também não sabe que o rapaz sentado à mesa do bar a tem observado discretamente, desde que ela pusera os pés dentro do lugar.
            Assim que ele colocou os olhos nela, a pálinka ficou esquecida sobre o balcão. Os longos cabelos ondulados, de um tom vermelho-dourado como magma, a pele clara, levemente bronzeada, os olhos verde-escuros como folhas de eucalipto, as sardas que enfeitavam seu rosto sob os olhos, os seios pequenos sob a blusa verde, a jaqueta de couro preta, o jeans skinny escuro marcando as longas coxas, as botas de salto baixo pretas.
É ela, ele pensou.
Mas, por quê as algemas? E estes sujeitos que a seguravam pelos braços? Era preciso ter calma. Ele não colocaria tudo a perder agindo impulsivamente. Ele não poderia.
Quando os capangas subiram as escadas que conduziam à sala de Botelho, o rapaz os seguiu e ficou escutando a conversa.
“Então esta é a lendária Blutig Pfeffer?” disse Botelho.
Pfeffer não respondeu.
“Eu sou Honório Botelho. Mas isto você já deve saber. Se lhe faltam boas maneiras, competência lhe sobra.”
Pfeffer soltou um riso sarcástico, mas não falou nada. Os dois capangas ainda a seguravam.
“Sabe, você é bem gatinha. Num mundo perfeito, eu não descansaria enquanto não te levasse pra cama,” disse Botelho.
“Num mundo perfeito eu jamais iria pra cama com um imbecil como você,” disse Pfeffer.
Botelho a esbofeteou com toda força. Pfeffer se conteve para não gritar, embora a dor fosse muito forte. Mesmo sentindo o gosto do sangue, ela conseguiu rir mais uma vez.
“Infelizmente, paciência não é o meu forte,” Botelho suspirou. “Seria uma pena machucar este rostinho lindo, mas eu preciso de informações, e não vou hesitar em usar qualquer meio para obtê-las.”
Botelho parou diante de Pfeffer. Seus grandes olhos negros se destacavam em seu rosto branco, eram dois poços indecifráveis, duas enormes pupilas rodeadas por uma estreita faixa de íris. Era como se eles pudessem engolir Pfeffer. Mesmo assim, ela não conseguia evitar um sorriso maroto, que o irritava sobremaneira. “Quem é seu chefe?”
Pfeffer riu. “Quem é o seu?”
Botelho a esbofeteou mais uma vez, e falou friamente. “Resposta errada.”
Os cabelos de Pfeffer cobriam seu rosto. O sangue que escorria do lábio formava uma linha vermelha até seu pescoço. Botelho puxou alguns fios para ver melhor o rosto dela, acariciou sua face, e perguntou ternamente. “Onde fica a sede da organização?”
Pfeffer aproveitou a proximidade para chutá-lo. Botelho caiu sobre a mesa do escritório espalhando os papéis pelo chão. As pernas da mesa se quebraram com o impacto, e logo Botelho estava deitado sobre lascas de madeira, cacos de vidro, canetas e outros materiais de escritório.
O aparelho de telefone, daquele modelo bege comum em repartições públicas, ficou parado em uma das lascas mais altas com o fio esticado, e o fone fora do gancho girava como um peão.     
“Tire essas mãos nojentas de cima de mim.” Pfeffer disse entre os dentes.
Alguns cacos do vidro que cobria a mesa cortaram os braços de Botelho. As mangas da camisa clara Armani que ele usava ficaram pontuadas por pequenas manchas vermelhas, e seus cabelos castanhos estavam bagunçados. Os capangas fizeram menção de largar Pfeffer para socorrê-lo, mas Botelho levantou a mão sinalizando que parassem.    
“Agora vocês vêem como ela é perigosa? Levem essa vagabunda daqui. Não me importa o que vocês façam com ela, só se certifiquem de que ela está realmente morta e queimem o corpo,” disse Botelho.
Os capangas arrastaram Pfeffer em direção à porta, mas ela conseguiu virar o rosto e disse suas últimas palavras. “Depois que eu matar estes dois patetas, vou voltar pra te pegar.”    
O rapaz ouvia a conversa. Ele queria muito torturar Botelho até a morte por ter batido na bela jovem, mas ele precisava permanecer focado. Os dois capangas certamente planejavam violentá-la antes de matá-la. Mesmo sabendo que ela era perfeitamente capaz de se livrar dos dois, seu instinto protetor jamais permitiria que ele simplesmente a deixasse sozinha com os bandidos.
Especialmente agora que ele finalmente a encontrou.
O rapaz entrou numa sala vazia enquanto os capangas passaram pelo corredor, os seguindo logo depois. Sem jamais perdê-los de vista, continuou acompanhando o grupo até eles chegarem ao salão do bar.
Foi quando tudo aconteceu.
Pfeffer usou o próprio aperto dos capangas como apoio para suspender-se e, ao mesmo tempo, chutar as canelas dos dois. O golpe não foi suficiente para derrubá-los, mas foi suficiente para afrouxar a compressão em seus braços, tornando possível assim estrangular um deles, o mais baixo, com a corrente da própria algema. 
O golpe foi tão rápido e certeiro que o outro jagunço, apesar de ser 35 centímetros mais alto que Pfeffer, ficou atônito e apavorado. Por pouco tempo, porque ela o derrubou com apenas dois golpes na cabeça e, a julgar pelo sangue que jorrava de sua fronte, ele não continuaria vivo por muito tempo. 
Logo em seguida, tirou um clipe do bolso da calça, o esticou deixando uma pequena dobra na ponta e o introduziu na fechadura das algemas. Ignorando o choque dos civis dentro do bar, após ter aberto as algemas, Pfeffer se agachou então para pegar a arma do segurança. Ela então saiu correndo pela porta, já sendo perseguida por um grupo de seguranças de Botelho.
Enquanto Pfeffer procurava por um carro para fugir, o rapaz parou seu Vectra GT-X azul com a porta do passageiro aberta para ela. “Quer uma carona?”     
Pfeffer pulou no carro, percebendo em meio à confusão que tocava no rádio a música “Escape the Nest” da banda Editors. O rapaz acelerou e saiu cantando pneu na direção da Rebouças. Mas logo apareceu uma Cherokee preta repleta de capangas de Botelho na contra-mão, e o rapaz teve que virar bruscamente na Bela Cintra. Impressionante como ele dirige bem, Pfeffer pensou. 
“Tem certeza que quer me dar uma carona?” Pfeffer perguntou.
“Absoluta,” respondeu o rapaz quando os primeiros tiros foram disparados. Eram duas horas da manhã de uma segunda-feira de outubro. A Paulista estava praticamente vazia. 
Pfeffer pegou um pequeno espelho dentro do bolso, e colocou para fora do carro. Conseguiu enxergar um elemento com um fuzil 762 na mão. Cautelosamente, colocou a 9 milímetros que roubara alguns momentos antes para fora, e mirou no meliante. Um disparo foi suficiente para que ele caísse rolando pelo asfalto com o fuzil na mão em frente ao cinema Belas Artes. É claro que a caminhonete não parou, mesmo assim Pfeffer repousou a cabeça no encosto do banco com um sorriso presunçoso estampado no rosto.
“Posso perguntar seu nome?” perguntou o rapaz enquanto eles passavam em frente às lojas de lustres da Consolação. 
“Só se você quiser um nome falso,” respondeu Pfeffer.
“E qual seria este nome falso?”
“Pfeffer,” ela disse e suspirou, “mas é melhor você não dizer a ninguém que me deu uma carona. Ou não vão acreditar em você, ou você terá problemas com as autoridades.”
O carro chegou ao centro tão rápido que os bandidos ficaram logo para trás. Nenhum sinal vermelho foi obstáculo. Quando eles chegaram à avenida Tiradentes, o carro estava a 140km/h, e o rapaz habilmente costurava pelos poucos carros da madrugada. A caminhonete já desaparecera, e a fuga havia sido bem sucedida.
Mesmo assim, o rapaz continuava voando pela marginal do rio Tietê sentido rodovia Ayrton Senna sem se preocupar com os radares.
“Você dirige muito bem,” Pfeffer falou.
“Eu tenho bons reflexos...” ele respondeu modesto.
“Acho que eles já nos perderam de vista. Você pode parar o carro um pouquinho?”
“Por que?”  
“Estou me sentindo mal...”
O rapaz parou o carro no acostamento; eles já estavam no início da Ayrton Senna. Pfeffer foi até o guardirreio e vomitou. O jovem se aproximou dela, puxando seus longos cabelos para trás.
Ele mal podia acreditar que a estava tocando. Seus cabelos eram macios e exalavam um odor de frutas. O rapaz queria mergulhar o nariz neles ali mesmo.
Mas logo ela se recompôs.
“Obrigada...” ela sussurrou, “você tem água?”
Ele buscou uma garrafa PET dentro do carro. Pfeffer pegou um pequeno vidro escuro dentro do bolso e tomou um comprimido.
“Onde você mora?” Pfeffer perguntou entre um gole e outro de água.
“Não tenho um lugar fixo.”
“Interessante. O que você faz em São Paulo?”
“Procurando alguém.”
“Encontrou?”
“Encontrei.”
Pfeffer suspirou e olhou para o chão. O lugar em que eles pararam era escuro, mas ela conseguia esquadrinhar os cabelos cor de caramelo despenteados do rapaz.
“Então... Eu acho que é adeus,” Pfeffer estendeu a mão.
O rapaz apertou a mão dela, maravilhado pelo toque. “Eu não vou deixá-la aqui no meio do nada...”
“Não se preocupe, eu sei me virar.”
“Não... Eu te deixo em casa.”
“Eu não tenho casa.”
“Então eu te deixo num lugar melhor, mais iluminado; um ponto de táxi talvez, o que você acha?”   
“Tudo bem. Se você faz questão...”
“Eu faço,” disse o rapaz, abrindo a porta do passageiro para que Pfeffer pudesse entrar.
O veículo entrou no retorno para a Ayrton Senna sentido marginal, mas desta vez ele não correu. Ele queria prolongar ao máximo o tempo com ela.
Ela jamais perguntou seu nome.
Quando ele parou o carro no terminal rodoviário Tietê, ela aproximou seu rosto do dele, afundando a mão em seus fios cor de bronze e puxando levemente. Ele sorriu e tocou a face direita dela exatamente onde as sardas a enfeitavam.
Para ele, era como dizer adeus para uma parte de sua própria alma. Enquanto ele a contemplava, pensava no quanto deixar uma parte dele ir embora era simplesmente impossível.  
Ela pensou em beijá-lo, mas lembrou que havia vomitado momentos antes. Seria nojento. E de qualquer forma, ela sequer o conhecia. Por que essa atração inexplicável, esse sentimento de intimidade tão forte?
O melhor a fazer era descer do veículo.
Mal sabia ela que ele ainda a seguiria pelo resto da madrugada.

Despertar

Abri os olhos como se eu acordasse de uma noite sem sonhos. As pálpebras pesadas, teimavam em fechar, como se feridas pela luz branca que preenchia o quarto. Tentei abrir os olhos novamente, inconformada. Ouvi alguém dizer algo.
“Pfeffer?” ela disse. “Você está acordando?”
Era Nite Owl, minha colega de trabalho e amiga pessoal. Owl era uma agente muito competente e talentosa. Havia me ajudado em várias missões complicadas; nunca pude duvidar de sua coragem, ou de sua lealdade. Estava sempre disposta a ajudar, nunca parecia cansada.
Abri os olhos mais uma vez, ainda incapaz de me levantar. Também era difícil mexer o pescoço, mas inclinei a cabeça na direção da voz. Reconheci o cabelo cor de chocolate e os óculos de grau com armação roxa.
“Owl, onde está Botelho?” sussurrei com dificuldade.
Honório Botelho era um policial federal corrupto. Um rei do crime de apenas 30 anos, a inteligência a serviço do mal. Eu precisava executá-lo, já que ele havia descoberto minha identidade, e não descansaria enquanto eu não estivesse morta. Na verdade, eu já era um obstáculo em seu esquema de tráfico de armas há meses, sendo a principal, senão a única razão pela qual ele não funcionava em São Paulo.
“Está morto, Pfeffer. Há três meses. Você foi muito bem sucedida em sua missão. Mas um dos capangas dele fingiu de morto e atirou em você pelas costas... Eu atirei nele logo em seguida, mas era tarde.”
“Há três meses? Que dia é hoje?” perguntei.
“22 de janeiro,” ela respondeu.
“Eu passei três meses em coma? Era outubro quando armamos a emboscada...” 
“Sim. Tivemos sorte de não perdê-la naquela noite. A Med trabalhou como uma louca para salvá-la. Quando sua situação finalmente se estabilizou, você estava em coma. Ninguém tinha certeza de quando, nem se você acordaria. Mas nós a manteríamos aqui por anos se fosse necessário... Você sabe como o Ricardo gosta de você, ele não se importaria de gastar qualquer fortuna para mantê-la viva, mesmo que as esperanças fossem poucas.”
“Até que eu finalmente acordei...”
“Sim! Como você se sente? Fico feliz por estar aqui neste momento. A gente ficou revezando a guarda, ninguém queria arriscar que alguém terminasse o serviço com você aqui indefesa...” ela explicou, com uma expressão preocupada.
“Estou com fome.”
Nite Owl deu uma gargalhada.
“Claro que você está. Quando que você não sente fome? Vou pedir algo para você. Alguma preferência?”
“Morangos com leite condensado. Muito leite condensado. E preciso muito de um espelho...”
Ela trouxe um pequeno espelho e me ajudou a mudar de posição.
Parecia que estava tudo bem. Meus cabelos estavam ressecados após todo aquele tempo sem cuidados. Mas nada que uma visita ao cabeleireiro não pudesse resolver.
“Eu vou buscar sua refeição e chamar a Med...” ela disse e escapuliu porta fora.
Eu continuei olhando meu reflexo no espelho, tentando estabelecer conexões. Parecia que estava tudo como antes, mas estaria mesmo? Eu havia passado 102 dias em coma, após uma falha imperdoável no serviço. O que Ricardo, líder dos Eremitas Urbanos, pensaria disso? Ele ainda me queria como agente?
Nite Owl entrou com uma bandeja na mão e veio até a cama. Percebendo que eu me esforçava para levantar, ela puxou meu tronco e arranjou os travesseiros, de modo que eu pudesse sentar. Mesmo tonta após tanto tempo inconsciente, senti que meu rosto enrubesceu quando senti o cheiro azedo dos morangos. Owl percebeu e entregou a tigela e uma colher de sobremesa para mim.
Era uma tigela branca, do tipo que se usa para tomar cereais matinais. Estava repleta de morangos grandes e vermelhos destacados no creme amarelado. Owl sentou na cama e fez uma cara de nojo quando eu comecei a comer.
“Como você consegue comer algo tão doce em jejum?” ela perguntou.
“Ela está mesmo precisando de uma dose concentrada de glicose.”
Foi Med que falou enquanto entrava. Med é a chefe do departamento médico da organização. Ela é responsável por manter os agentes vivos e em condições de lutar. Ela tinge os cabelos curtos de acaju, seus pequenos olhos são castanhos, sua pequena boca é enrugada e sua voz, estridente. Tem estatura baixa, cerca de 1,50m, e conta com um certo acúmulo de gordura na região da cintura.
Eu tenho um certo respeito por ela, pois está na faixa dos cinquenta anos e tem um filho adolescente, e até onde sei, nunca se casou. Ela nunca comentou sobre o pai do garoto, e eu imagino que criar um filho sozinha deve ser uma barra. 
“Então a lendária Blutig Pfeffer acordou do coma! O Ricardo vai gostar de saber disso!” Med falou, não tentando disfarçar a ironia na voz.
Fingi que não percebi, deixando uma nota mental para investigar a hostilidade mais tarde. Esses comentários maldosos sempre aparecem quando nos encontramos. Eu definitivamente não confio nela.
“Deixa disso, Med... Cometi um erro terrível e dei trabalho para vocês.” 
Enquanto falava, senti uma gota de leite condensado escorrendo em meu lábio inferior. Quando fui limpar, Med passou um lenço e sorriu. Havia algo naquele sorriso que eu não gostei, ratificando a nota mental anterior. 
“Deixa disso você, Pfeffer! Ninguém queria perdê-la!” Owl disparou.
“Certo, certo,” Encerrei a rasgação de seda ali mesmo. Eu já estava entrando em modo serviço, não queria perder tempo com discussões inúteis. “Em que condições estou, Med?”
“Você levou um tiro nas costas, caiu e bateu a cabeça. Perdeu um pouco de sangue, mas Criazul e Owl a trouxeram a tempo. Você passou 102 dias em coma. Como se sente?” 
“Tudo bem, mas eu quero levantar, sair daqui, voltar para minha vida...” respondi impaciente.
“Você já vai levantar. Vai ter alguma dificuldade de movimentação por algum tempo, mas logo vai voltar ao normal,” Med acrescentou.
“Quanto tempo?”
“Alguns dias, uma semana no máximo. Você só precisa se alimentar direitinho. Vou pedir que a enfermeira traga algo de hora em hora.”
Percebi que Owl arregalou os olhos ao ouvir Med dizer isso, mas logo sua serenidade a dominou.
Med pegou então uma seringa, e puxou meu braço esquerdo. “Agora eu vou coletar algumas amostras de sangue para fazer alguns exames.”  
“Quais exames?” perguntei.
Med tentou disfarçar, mas percebi que ela não queria responder.
“Não precisa ficar com medo, é só uma picadinha...” eu mantive o braço dobrado, e ela continuou, “São apenas alguns exames de rotina: glicemia, hemograma, tireóide...”
Med estava sorrindo quando finalmente estendi o braço. 
“O Ricardo já foi avisado. Está em reunião com os noruegueses; assim que terminar, sobe aqui,” Nite Owl avisou, serena como sempre.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sinister invasion

This is a terror short story about a graduate party. PG-13 for violence, suspense and alcoholic drinks. 

          It was truth that I was in love with Honey. And by some miracle, it was truth that this tall, athletic and owner of deep green eyes was in love with me.
         We met at my sister's graduation party last year. I knew nothing about love so far. The party was already over, it was five o'clock in the morning and the band was gone. A DJ was playing house and funk from Rio de Janeiro to the survivors. I was one of the few sober people on the dancefloor.
         He approached me with a soda in his hand, seemed to be abstinent as well. He came close to be heard amid the deafening sound of the hall and asked if I would like to chat with him in the garden. Frightened by the proximity of a kid who probably wanted to kiss the fourteenth girl in the party, I said I couldn’t leave my sister alone, leaning my chin in the direction of a wheel of lively girls.
         Not convinced by the argument he replied: "Your sister doesn’t seem to be alone... Why don’t you warn her you’ll be in the garden and come back soon?"
         His eyes sank into mine, and I was compelled to accept his invitation. A little embarrassed, I nudged my sister and practically screamed in her ear: "I'll get a soda out there... I’ll be right back!"
         She simply nodded and continued jumping with other graduates.
          Discreetly, I headed toward the outer courtyard, where there was a bar and the noise was much lower. He followed me and, away from the gloom, we scan our faces for the first time. Then I got notice that his hair was really dark, being tousled by the morning breeze.
         A little lost, he asked if I wanted something to drink. I ordered a soda, and with the bottle in my hand, accompanied him to the garden. There was a bench curiously adorned by an array of bamboo arch with vines, where we sat.
         "My name is Honey, and yours?" He started.
          "Blueberry." I replied.
         He seemed nervous, smiled and lowered his eyes from time to time. My right hand rested on my lap and in one of these deviations, was captured by his violent stare.
         "Blue nails?" He asked.
         "Match the dress..." I replied.
         "And with your copper-colored hair..." He completed.
         My heart pounded. It was like I was frightened. And indeed I was. I did not know that feeling gripping inside my chest. It was like an internal explosion, I was almost breathless, his eyes still piercing me...
         I was so lost in these feelings that took a few seconds to realize the people screaming in a big flurry of panic. In a protective reflex, Honey put his left arm over my shoulder while trying to understand what was happening.
         The guests were running scared. A brunette in a ruined green dress, having also broken the silver heels. She had a silver wallet in her left hand, which fell on my feet in the moment of the fall.
         She took the wallet while Honey helped her get up.
          "What's happening?" Honey asked.
         The girl seemed uncontrolled. She cried and babbled incoherent words.
          "Monsters... Invasion... Fear..."
          Indifferent to our attempt of offering help, the brunette ran towards the gate like the rest of the crowd. I was still watching the confusion astonished, when Honey said: "Could it be a fire in the lounge?"
         At the moment I felt a chill in my spine. My sister was in there! I got up frightened and he immediately grabbed my hand. "Be calm, Blueberry. We’ll rescue your sister."
         We ran to the hall, against the flow. Honey grabbed my left wrist and didn’t let me go, despite the insane crowd pushing us.
         In the bar was already possible to see bodies strewn on the floor. They weren’t charred as we thought. Instead, they were covered by a yellowish green slime, gelatinous and translucent.
          Immediately, I panicked. I imgined my sister wrapped in some corner of the room and started shaking. I fell on my knees on the floor and screamed her name: "Sweet!"
         Honey knelt beside me and hugged me. "Stay calm, we will save Sweet..."
         "What if she is dead?" I shouted between sobs and tears.
         A latecomer waiter shouted at us: "The hall is locked out! The creatures are in there! Do not open! Run away!"
         No one was alive at the bar apart from us. Three security guards were lying in front of the locked door and I soon understood. People panicked and left the room locked up not worrying about the innocents who’d die in there. And my sister was there with her friends! I should go there immediately.
          Irrationally, I ran to the door and felt I was held by Honey. I tried to escape, but he held tightly.
         "These bodies are covered with bile." He said.
         I kept silently staring blankly.
         "This is an attack of fish-livers. They live in fresh water, they came from the lake, probably attracted by the crowd in the party. They went to the hall because there was more people there, but they came devouring the victims along the way. "
         "How do you know about this creature?" I asked.
         "My uncle caught one of those once. It came in the net. Creature incredibly ferocious and malignant. It can survive up to twelve hours out of water. Humans are their main source of nutrition."
         "How can we kill them?"
         "They don’t like alcohol. We can rub the drinks in our bodies to keep them away. But we’re risking our lives, for the only way to kill them is burning them with fire." He concluded seriously.
         Then we could kill them. But not without facing a great chance of dying in this process. The same alcohol that would protect us, would make us vulnerable to the flames that burn them.
          Although the risks were high, I couldn’t even consider to stay safe out there while my sister could be turned into bile at any time inside that room.
         I ran to the bar and turned down the first bottle of liquor I found all over my pretty blue dress. I took off my golden-heeled sandals and wet myself with vodka from the feet to the thighs. Then I spread the drink all over my arms, neck and lap.
         Honey joined me and took off the tie, keeping only the shirt with the sleeves rolled up. He took a bottle of whiskey and turned on its head letting it drip all over his body. He took off his shoes and socks and spread plenty of drink all over his feet.
         "We will get in cautiously. Once we find the survivors, we’ll bathe them in drinks. You go out with them and I fire the hall." Honey said as he picked up a lighter lost on the floor, a bottle of tequila, and his own tie soaked in alcohol. A fuse, I figured.
         He opened the door and stepped in before me. Soon I could smell death. Blood and bile were distorted by the colorful lights of the dancefloor. Piles of bodies in beautiful clothes were covering the floor.
         It didn’t take much effort to find the creatures. They were accumulated around a large circle of fire made by the survivors. My sister was inside it, terrified and screaming next to half a dozen people. Someone must have noticed that the fire kept the creatures away and made this circle.


Fortunately, there was an opening in the ceiling, since all windows were closed. Otherwise, everyone would have died asphyxiated.
          Around the fire, the fish-livers were jumping three feet high. They were trying hard to go through the flames, but the heat frightened them more than anything.
          Looking closely, I could understand why the creature was called fish liver. Each of them was shaped like a liver and had that sleek look on the skin. Its color was a yellowish-brown hue, as a mixture of bile and blood. The mouth had a wrinkled layer ivory resembling lymph nodes. It was incredibly disgusting.
         One of them was still ferociously devouring the remains of some bodies. It seemed to chew, leaving each point by which he was riding his mouth, dripping with bile. Avoided but lick the mouths of those who had been drinking. Thus, the corpses still retained deformed mouth and pieces of skin in which drops of liquor had drained by chance.
         As we got closer to the wheel of fire, the creatures saw us. They jumped at us, decided to attack. Sensing the imminent danger, I cried hugging Honey. He cradled my head on his chest as I closed my eyes. I waited for the bites, but nothing happened.
         I looked up and realized the monsters seemed to hit an invisible wall. I opened my eyes wide in awe.
          "Alcohol," Honey said.
          ”Sweet! I'm here! I'll save you!" I shouted, relieved by the effectiveness of the repellent.
          "Blueberry! We are scared to death here!" She said.
          "Throw the liquor all over your bodies and stay away from the fire!" Honey cried for survivors while throwing a bottle of tequila in the circle.
         I ran up the tables and picked up several bottles. It was sad to notice dead people resting their heads on the tables, the arms down. But I had to run to save the left survivors, and the only way to find the strength was ignoring the corpses covered with mucus.
         I threw a few bottles inside the wheel. Although they didn’t understand the reasons, they obeyed Honey. We waited until everyone was completely soaked with alcohol.
         "The creatures don’t like alcohol. They are not attacking us because we are covered with drinks too. Now that you are ready, we'll put out the fire so you can escape," Honey said.
         Honey took a jacket, that was resting in a chair and used to put out the fire circle. As the flames died, the fish-livers attacked the group. Some girls screamed, quieting down soon though, when they realised the invisible barrier keeping them safe.
         "Take the girls and wait outside while I fire the hall with the guys’ help." Honey said looking at my eyes.
          Although I didn’t say anything, he must have sensed the fear in my eyes, so he continued: "Don’t worry, we are protected by alcohol. We’ll be careful. We cannot let these monsters alive, for they’d hunt other humans."
         "Come on, girls. The boys will deal with the creatures." I told the girls. They hesitated, but came with me.
          Outside the room, I hugged my sister. She was crying a lot, she couldn’t even speak.
         A few minutes later, the boys got out of the room. The flames raged all around, the smoke had already begun to pollute the air, so we needed to run.
         Honey was the last to go out, and hugged me with relief. We ran toward the gate and heard a loud annoying noise. They were the groans of pain of the fish-livers. The smell that filled the air was horrible, bitter and repulsive. It seemed like vomit.
         We could only run from that nightmare as soon as possible. We could only find relief after we had passed the huge black gate entrance. The day was already dawning, the sky became blue and the sun promised a hot summer day.
         After this tragedy our lives came back to normal. I started dating Honey. Although we met in such a stormy moment, our relationship is very quiet.
         Now, almost one year later, I'm getting ready for my graduation party. Honey is in the living room waiting for me.
         Sweet doesn’t want to go and tried to convince me not to go too. She is very traumatized, I understand perfectly. It was a very intense experience for her.
         Honey convinced me of the importance of my prom. Although I also keep some trauma and fear, I recognize the need to fight this feeling as soon as possible. After all, there is no kind of curse imposing terror on graduations. And this is a really fun night. I hope.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Invasão sinistra

 Conto de terror sobre uma festa de formatura. Não recomendado para leitores com menos de 13 anos por conter cenas de violência, suspense e uso de bebidas alcoólicas.

Era verdade que eu estava apaixonada por Honey. E por algum milagre, era verdade que aquele rapaz alto, atlético e dono de profundos olhos verdes estava apaixonado por mim.
Nós nos conhecemos na formatura de minha irmã, ano passado. Eu não sabia nada sobre o amor até então. A festa já estava acabando, eram cinco horas da manhã e a banda já tinha ido embora. Um DJ tocava house e funk carioca para os sobreviventes. Eu era uma das poucas pessoas sóbrias na pista.
Ele se aproximou de mim com um refrigerante na mão; parecia ser abstêmio também. Chegou perto para ser ouvido em meio ao ensurdecedor som do salão e perguntou se eu gostaria de conversar com ele no jardim. Assustada com a proximidade de um moleque que provavelmente desejava beijar a décima quarta garota na festa, respondi que não podia deixar minha irmã sozinha, inclinando o queixo na direção de uma roda animada de garotas.
Não convencido pelo argumento ele respondeu: “Sua irmã não parece sozinha... Por que você não avisa que estará comigo no jardim e que voltaremos logo?”
Seus olhos mergulharam nos meus naquele momento e fui impelida a aceitar seu convite. Um pouco envergonhada, cutuquei minha irmã e praticamente gritei em sua orelha: “Vou buscar um refrigerante lá fora... Volto já!”
Ela simplesmente concordou com a cabeça e continuou pulando com os outros formandos.
Discretamente rumei em direção ao pátio externo, onde ficava o bar e o barulho era bem menor. Ele me seguiu e, longe da penumbra, esquadrinhamos nossos rostos pela primeira vez. Consegui então perceber que seus cabelos eram realmente escuros enquanto a brisa da madrugada bagunçava os fios.
Um pouco perdido ele perguntou se eu queria beber alguma coisa. Eu pedi um refrigerante e, com a garrafinha na mão, o acompanhei até o jardim. Havia um banco curiosamente ornado por um arranjo de bambus com trepadeiras em arco, onde nos sentamos.
“Meu nome é Honey, e o seu?” Ele começou.
“Blueberry.” Respondi.
Ele parecia nervoso, sorria e abaixava os olhos de tempos em tempos. Minha mão direita repousava em meu colo e, num desses desvios, foi captada por seu violento olhar.
“Unhas azuis?” Ele perguntou.
“Combinam com o vestido...” Respondi.
“E com seus cabelos cor de cobre...” Completou.
Meu coração batia forte. Parecia até que eu estava assustada com alguma coisa. E de fato eu estava. Não conhecia aquela sensação que tomava conta de meu peito. Parecia uma explosão interna, minha respiração estava quase ofegante, seu olhar continuava me perfurando...
Estava tão perdida nestas sensações que demorei alguns segundos até perceber as pessoas gritando num grande alvoroço de pânico generalizado. Num reflexo protetor, Honey colocou seu braço esquerdo sobre meus ombros enquanto tentava entender o que acontecia.
Os convidados corriam apavorados. Uma morena de vestido verde tropeçou, tendo inclusive quebrado o salto prata. Segurava uma carteira prateada na mão esquerda, que caiu em meus pés no momento do tombo.
Levei a carteira até ela enquanto Honey a ajudava a se levantar.
“O que está acontecendo?” Honey perguntou.
A jovem parecia descontrolada. Chorava e balbuciava palavras desconexas.
“Monstros... Invasão... Medo...“ 
Indiferente a nossa tentativa de oferecer ajuda, a morena saiu correndo em direção ao portão a exemplo da multidão. Ainda observava a confusão atônita quando Honey disse: “Será algum incêndio no salão?”
Na hora senti um calafrio percorrendo minha espinha. Minha irmã estava lá dentro! Levantei apavorada e ele imediatamente agarrou minha mão. “Tenha calma, Blueberry. Vamos resgatar sua irmã.”
Corremos para o salão contra o fluxo. Honey agarrou meu pulso esquerdo e não me deixou escapar apesar da multidão insana que nos pressionava.
No bar já era possível ver corpos espalhados pelo chão. Não estavam carbonizados como imaginávamos. Estavam cobertos por uma gosma amarelo-esverdeada, gelatinosa e translúcida.
Imediatamente entrei em pânico. Imaginei minha irmã envolta naquilo em algum canto do salão e comecei a tremer. Caí ajoelhada no chão e gritei seu nome: “Sweet!”
Honey se ajoelhou a meu lado e me abraçou. “Fique calma, vamos salvar Sweet...”
“E se ela já estiver morta?” Eu gritei em meio a soluços e lágrimas.
Um garçom retardatário gritou em nossa direção: “O salão foi trancado por fora! As criaturas estão lá dentro! Não abram! Fujam!”
Não havia ninguém vivo no bar além de nós dois. Três seguranças jaziam em frente à porta trancada e eu logo entendi. As pessoas apavoradas trancaram o salão e fugiram não se preocupando com os outros inocentes que morreriam lá dentro. E minha irmã estava lá com suas amigas! Eu deveria entrar lá imediatamente.
Irracionalmente corri para a porta e senti que Honey me segurava. Tentei soltar mas ele segurava firmemente.
“Estes corpos estão cobertos de bile.” Ele falou.
Continuei encarando em silêncio sem entender.
“Trata-se de um ataque de peixes fígados. Eles vivem na água doce, provavelmente vieram do lago atraídos pela multidão presente na festa. Entraram no salão porque é o lugar mais cheio, porém antes devoraram as vítimas ao longo do caminho.”
“Como você sabe sobre esta criatura?” Perguntei.
“Meu tio pescou um desses uma vez. Veio junto na rede. Criatura incrivelmente feroz e maligna. Sobrevive até doze horas fora d’água. Os humanos são sua principal fonte de nutrição.”
“E como podemos matá-los?”
“Eles não gostam de álcool. Podemos esfregar as bebidas no corpo para mantê-los afastados. Mas correremos forte perigo, porque a única forma de matá-los é ateando fogo diretamente a eles.” Ele concluiu com ar sério.
Então nós poderíamos matá-los. Mas não sem correr um elevado risco de morrer neste intento. O mesmo álcool que nos protegeria deles, nos tornaria vulneráveis às chamas que os queimariam.
Embora os riscos fossem grandes, sequer passava por minha cabeça ficar ali fora segura enquanto minha irmã poderia ser transformada em bile a qualquer momento dentro daquele salão.
Corri até o balcão do bar e virei a primeira garrafa de destilado que encontrei em meu lindo vestido azul. Tirei as sandálias douradas de salto fino e espalhei vodka desde os pés até as coxas. Depois espalhei a bebida pelos braços, pelo pescoço e pelo colo.
Honey veio comigo e tirou a gravata, mantendo apenas a camisa cujas mangas arregaçou. Pegou uma garrafa de uísque e virou sobre a cabeça deixando o líquido escorrer por todo seu corpo. Tirou os sapatos e as meias e espalhou a bebida abundantemente por seus pés.  
“Vamos entrar cautelosamente. Assim que encontrarmos os sobreviventes, vamos banhá-los em bebidas. Você sai com eles e eu ateio fogo ao salão.” Honey falou enquanto pegava um isqueiro perdido no chão, uma garrafa de tequila, e sua própria gravata embebida em álcool. Um estopim, imaginei.
Ele abriu a porta e entrou em minha frente. Logo senti o cheiro de morte. Sangue e bile tinham suas cores distorcidas pelas luzes coloridas da pista. Pilhas de corpos em belas roupas cobriam o assoalho.
Não precisei fazer grande esforço para encontrar as criaturas. Estavam acumuladas em torno de um grande círculo de fogo feito pelos sobreviventes. Minha irmã estava dentro dele, gritava apavorada ao lado de meia dúzia de pessoas. Alguém deve ter percebido que o fogo os afastava e fez este círculo. Felizmente havia uma abertura no teto, já que todas as janelas estavam fechadas. Caso contrário, todos já teriam morrido asfixiados.
Em volta do fogo os peixes fígados davam pulos de um metro de altura. Tentavam avançar através das labaredas, mas o calor os assustava mais que qualquer coisa.
Observando atentamente pude entender por que a criatura se chamava peixe fígado. Cada um deles tinha o formato de um fígado e até mesmo o aspecto lustroso na pele. Sua cor era uma nuance marrom amarelada, como uma mistura de bile e sangue. A boca tinha uma camada marfim enrugada que lembrava nódulos linfáticos. Era absurdamente nojento.
Um deles ainda devorava ferozmente o que restava de alguns corpos. Parecia roer, deixando cada ponto pelo qual passava sua boca, encharcado de bile. Evitava porém lamber a boca de quem havia bebido. Desta forma, os cadáveres deformados conservavam ainda a boca e pedaços de pele nos quais gotas de bebida por ventura tivessem escorrido.   
Assim que nos aproximamos da roda de fogo, as criaturas olharam para nós. Pularam em nossa direção, decididos a atacar. Sentindo o perigo iminente, gritei e abracei Honey. Ele encostou minha cabeça em seu peito enquanto fechei meus olhos. Esperei pelas dentadas e nada aconteceu.
Levantei a cabeça e percebi que os monstros pareciam bater numa parede invisível. Arregalei os olhos admirada.
“O álcool.” Honey explicou.
“Sweet! Estou aqui! Vou salvá-la!” Gritei, aliviada pela eficácia do repelente.
“Blueberry! Estamos morrendo de medo aqui!”  Ela respondeu.
“Passem a bebida no corpo e fiquem longe do fogo!” Honey gritou para os sobreviventes enquanto jogava a garrafa de tequila dentro do círculo.
Eu corri até as mesas e recolhi várias garrafas abandonadas. Era triste reparar nas pessoas mortas com as cabeças apoiadas nas mesas e os braços caídos. Mas eu precisava correr para salvar os poucos que restavam e a única maneira de encontrar forças era ignorar os cadáveres cobertos de muco.
Joguei algumas garrafas dentro da roda. Embora não entendessem a razão, as pessoas obedeceram a Honey. Esperamos até que todos estivessem totalmente encharcados de álcool.
“As criaturas não gostam de álcool. Eles não estão nos atacando porque estamos cobertos de bebidas também. Agora que vocês estão prontos, vamos apagar o fogo para que possam fugir.” Honey explicou.
Honey apanhou um paletó que descansava nos braços de uma cadeira e foi abafando o fogo do círculo. Conforme as chamas morriam, os peixes fígados avançavam no grupo. Algumas garotas começaram a gritar, se acalmando logo depois entretanto, quando perceberam a barreira invisível que as mantinha seguras.
“Leve as garotas embora. Espere lá fora enquanto eu ateio fogo ao salão com a ajuda dos rapazes.” Honey disse olhando para meus olhos.
Embora eu não conseguisse falar nada, ele deve ter percebido o pavor em meu olhar, porque continuou: “Não se preocupe, estamos protegidos pelo álcool. Teremos cuidado. Não podemos deixar os monstros vivos aqui, eles caçarão outros humanos.”
“Vamos, meninas. Os rapazes vão cuidar das criaturas.” Falei para as garotas. Elas hesitaram, mas vieram comigo.
Fora do salão, abracei minha irmã aliviada. Ela chorava muito, sequer conseguia falar.
Alguns minutos depois os rapazes deixaram o salão. As chamas se alastravam por todos os lados, a fumaça já começava a poluir o ar e precisávamos correr.
Honey foi o último a sair e me abraçou aliviado. Saímos correndo em direção ao portão ouvindo um ruído irritante e estridente. Eram os gemidos de dor dos peixes fígados. O cheiro que empestava o ar era horrível, azedo e repulsivo. Parecia cheiro de vômito.
Nós só podíamos correr daquele pesadelo o mais depressa possível. O alívio só chegou quando passamos pelo enorme portão preto da entrada. O dia já estava amanhecendo, o céu se tornava azul claro e o sol prometia um dia quente de verão.
Depois dessa tragédia nossas vidas voltaram ao normal. Comecei a namorar Honey. Apesar de termos nos conhecido de forma tão tempestuosa, nosso relacionamento é muito tranqüilo.
Agora, praticamente um ano depois estou me arrumando para minha formatura. Honey está na sala me aguardando.
Sweet não quer ir e tentou me convencer a faltar também. Ela ficou muito traumatizada, eu entendo perfeitamente. Foi uma experiência muito intensa para ela. 
Honey me convenceu sobre a importância de meu baile. Embora eu também guarde algum trauma e medo, reconheço a necessidade de lutar contra esta sensação o mais depressa possível. Afinal, não existe nenhum tipo de maldição que institua terror em formaturas. E esta será uma noite muito divertida.
Espero.