segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Cultura de estupro: Brasil não tão longe da Índia

A vítima de um cruel estupro coletivo morreu no último dia 29 em Cingapura. A moça, de apenas 23 anos, foi violentada por seis ou sete homens (dependendo das fontes) dentro de um ônibus em Nova Délhi, Índia.

Ela estava acompanhada por um amigo. Eles voltavam de um cinema à noite, pegaram um ônibus e então tudo aconteceu. O motorista mais os outros homens que lá estavam decidiram violentá-la brutalmente. O quão brutal? Ela perdeu parte do intestino tamanha a violência das penetrações em seu ânus, ela foi até empalada com uma barra de ferro.

Eles a compartilharam por quase uma hora. Depois de satisfeitos, a espancaram covardemente com a tal barra de ferro. E como se não bastasse, eles a jogaram do ônibus em movimento. O amigo dela também foi espancado e jogado pra fora do veículo, só não foi estuprado. Desejo de destruição, hein? Isso porque o mundo quer acreditar que misoginia é uma manifestação raríssima.    

Como algo assim acontece? Eu quero dizer, todos os homens que estão dentro de um ônibus veem uma moça embarcar e ao mesmo tempo pensam: "Oba, vamos estuprá-la e espancá-la!". Será que eles realmente acreditam que se uma mulher está na rua à noite, ela merece ser violentada?

Aqui no Brasil também acontecem estupros coletivos. Há alguns meses, os nove integrantes de uma banda de pagode da Bahia (New Hit) acharam uma excelente ideia violentar duas menores com requinte de crueldade no ônibus da banda. Não tiveram nem a dignidade de usar camisinha. Depois de satisfeitos, falaram para as meninas: "Não esqueçam de tomar a pílula do dia seguinte".  


New Hit (divulgação)
   
O pior é que eles estão aguardando o julgamento em liberdade. Sim, um desembargador teve coragem de julgar procedente o pedido de habeas corpus dos advogados deles. E eles estão fazendo até show! O pior é ter patrocínio e público para esses shows.



(E olhando pra essa foto a gente se pergunta se o mais brega é morder a blusa pra exibir o tanquinho ou usar óculos escuros comprados em supermercado. Antes eles só se vestissem mal, né?)

Enquanto isso, Rafinha Bastos faz piada de estupro. E não só ele. Acontece que a gente tem toda uma cultura que concorda com ele. O que é o quadro de assédio sexual no trem em Zorra Total? Fui assistir ao filme "De pernas pro ar 2" sexta e fiquei abismada com o número de piadas de estupro no filme.

Numa clínica de reabilitação, um viciado em sexo (conhecido como Mano Love) tenta invadir o quarto de uma das internas. Quando ela reclama, ele diz que ela estava querendo. Depois, um dos rapazes diz que ele também tentou invadir o quarto dele. Aparentemente, essa é a piada. Esse mesmo Mano Love aparece querendo praticar zoofilia com cabras numa outra cena.

Num outro momento, uma senhora que não fala inglês pede um garfo num restaurante em Nova Iorque e, ao dizer "I want a fork", o funcionário do restaurante entende "I wanna fuck". Ele então a leva para algum lugar. Momentos depois ela aparece apavorada com a roupa aberta e reclamando que o homem tentou violentá-la. O garçom diz: "Aproveita, melhor que isso você não vai arranjar".

Ou seja, como ela é mais velha (logo considerada feia para o padrão de beleza), deve ficar feliz que algum homem sentiu vontade de estuprá-la. Porque mulher existe pra isso mesmo, não é? Dar prazer ao homem. Uma mulher que não é desejada por nenhum homem é uma pobre coitada. 


Pesquisa sobre estupro

Vejo muitas pessoas falando desse crime brutal que aconteceu na Índia como se fosse um evento de caráter endêmico. Mas em qualquer site pornográfico, é possível achar uma infinidade de vídeos de estupro. Piadas de estupro, infelizmente comuns aqui no Brasil, continuam sendo veiculadas como se fossem inócuas. No Facebook, existem várias páginas que fazem apologia ao estupro sob o disfarce do humor. São páginas com milhares de "curtidas" e o Facebook jamais apaga as postagens delas, por mais explicitamente misóginas que sejam. 

Vivemos um momento em que grupos historicamente oprimidos não têm o direito de reclamar da discriminação que sofrem. Qualquer tentativa de coibir discurso de ódio é tratada como ameaça à liberdade de expressão, mas quando se critica veículos difusores de discurso de ódio, várias tentativas de censura são aplicadas. Argumentos de violação de direitos autorais, ameaças de exposição de dados e ameaças de processos são apenas algumas das estratégias normalmente utilizadas por quem ganha dinheiro explorando preconceitos arraigados em nossa cultura.

O fato de esse tipo de conteúdo fazer sucesso e render tanto dinheiro só comprova o quanto o estupro é um problema estrutural mundial. Estupradores, na maioria dos casos, são homens comuns. Só uma pequena parte deles são psicopatas. O que todos eles têm em comum é a coragem de usar a força física para constranger uma mulher a servir de boneca inflável para eles. E é essa coragem que o discurso de ódio legitima.   


The truth about false accusation (http://theenlivenproject.com)

Às vezes o sacrifício de uma inocente pressiona autoridades a tomarem providências. Agora só nos resta lutar para que a tortura e morte dessa jovem não seja em vão. 


Encerro com esta excelente imagem do site The Enliven Project que desmistifica através de estatísticas a lenda sobre acusações falsas de estupro:


 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Misoginia de discurso e a má-fé de Rafinha Bastos

Um dia, era período de férias, eu fui almoçar no bandejão da universidade na qual estudo. Fiquei  surpresa quando, havendo vários lugares vagos, dois rapazes se sentaram a meu lado. Ao longo da refeição, ficou clara a intenção por trás da escolha deles.

Eles conversavam sobre um tal prostíbulo que fazia uma promoção, o programa custava menos durante o dia. Num dado momento um dos elementos disse: "Ele comeu uma mina top por R$70,00". Quer dizer, ele não só quer ser misógino, ele quer que uma mulher saiba disso. Ele escolheu se sentar a meu lado para ter a chance de falar sobre esse assunto com seu amigo para que uma mulher ouvisse.  

Num outro dia, no mesmo bandejão, tive o azar de me sentar na mesma mesa que esse cara novamente. Pois é, eu não reparei que ele era o mesmo indivíduo até escutar a conversa. Dessa vez ele estava com um grupo maior de otários. Quando me viu, começou a falar bem alto sobre uma tal DST que ele havia contraído. Sério. O cara achou legal falar sobre a dor que sentia quando tinha uma ereção. Provavelmente porque ele queria que eu soubesse que ele tem ereção. Escutei por mais alguns minutos ele falar sobre ter visto filmes pornográficos e um show da Shakira, mas não ter tido uma ereção por ter ficado com medo. 

Então eu troquei de mesa. Mas fiz questão de escolher uma mesa próxima, pra que ele entendesse a razão pela qual eu mudei de mesa. Sabe, a gente não é obrigada a ouvir homens conversando sobre porcarias. Principalmente quando eles escolhem esses assuntos justamente para que nós mulheres escutemos.

Isso é misoginia de discurso. Homens dizem coisas degradantes para as mulheres em voz alta porque a sociedade não aplica sanções contra quem desrespeita mulheres. Esse desejo de destruição do feminino é aceito porque no fundo uma boa parte de nossa sociedade concorda com esse tipo de manifestação. É o caso da normatizada cantada de rua, por exemplo. Nada mais é que um tipo de agressão verbal.

Não precisa ser um insulto direcionado. Há alguns dias no metrô, eu ouvi um grupo com três rapazes falando para quem quisesse escutar sobre uma garota que tinha "cheiro de puta". Depois que desembarquei, tive a infelicidade de topar com outro grupo. Um deles dizia não aguentar olhar na cara de uma tal "mina". O outro, que inclusive era afro, disse em voz alta: "Mas você não precisa olhar pra cara dela, só pra aquele cuzão gostoso dela".

Pois é, lamentável. O cara não vê nenhum problema em tratar as garotas como objeto publicamente. Se fosse uma manifestação racista não teria essa enorme aceitação. Os caras teriam vergonha de se colocarem assim publicamente. Mas ser machista parece ser legal. Tratar garotas mal parece ser um motivo de orgulho para os rapazes. O que nós temos é toda uma cultura que entende mulheres como seres desprezíveis que precisam ser controlados, e que considera o machismo inócuo e cultural. Uma cultura que inclusive não fala em misoginia, mesmo quando um crime de ódio como o massacre do Realengo acontece. Porque manifestações misóginas são tão normais e esperadas que ninguém se choca. E isso inclui a desqualificação sistemática do movimento feminista. O que nos leva a Rafinha Bastos.

Rafinha Bastos postou há alguns dias uma mensagem mais ou menos assim: "Cadê o movimento feminista pra lutar contra o tratamento diferenciado que a mulher recebe ao pagar meia-entrada na festinha?".

Sabe, eu tenho certeza de que esse homem não entende nada de feminismo, haja vista ele ter achado que havia dado um motivo pra gente lutar quando protestamos contra suas "piadas" sobre estupro.

Por outro lado, ele não é simplório o suficiente pra acreditar nessa declaração dele. Eu tenho certeza de que ele sabe que em balada GLS os valores são iguais. Ele deve saber inclusive que em baladas direcionadas ao público gay masculino, mulheres pagam mais. Ele também certamente sabe que homens não vão a baladas hétero se não houver mulheres lá. Ele sabe também que mulheres não costumam ir para a balada sozinha devido ao assédio que sofrem, logo uma mulher na festa significa mais algumas amigas na festa. Acima de tudo, ele sabe que don@ de balada não faz caridade. Ele sabe que se mulheres pagam menos, não é por cavalheirismo. É meramente uma estratégica comercial. Mulheres são iscas.

Tudo bem, a gente pode até gastar um pouco menos. Mas a gente ganha menos também, é sempre bom lembrar. Num país onde existe uma misoginia estrutural tão forte, esperar que o movimento feminista se concentre num detalhe tão insignificante chega a ser juvenil. Sem brincadeira.
 

Se o Rafinha fosse adolescente, seria normal ouvir uma perguntinha como essa. Mas não é o caso. É lógico que isso é má-fé. Ele quer desqualificar o movimento feminista, já que tem tido problemas com a gente por praticar misoginia constantemente.

E eu não tenho medo de afirmar isso, sabe por quê? Num país em que um homem fala em voz alta que mulher feia não pode reclamar por ter sido estuprada, e não acontece nada com ele, a gente vai ter medo de dizer o quê? E é bom deixar claro que meu blog é de humor politicamente incorreto.

Obviamente, ele também quer ser ovacionado pelos fãs imbecis dele. Ele conhece bem seu público alvo, sabe muito bem que qualquer declaração senso comum capaz de reiterar algum preconceito bem arraigado nessa gente concede a eles o aval de pensar como pensam. Rafinha Bastos diz coisas machistas, logo quem gosta das piadas dele é machista. Mas não só isso. Essas pessoas se sentem confortáveis com as declarações dele, é como se alguém mais importante e portanto com mais autoridade estivesse validando seus valores. Claro que no processo ele também paga de estúpido diante de pessoas como eu. Mas eu não sou o público alvo dele.   

A única forma de se desconstruir esse discurso misógino social perigoso é oferecendo senso crítico às pessoas. E isso elas só vão receber se estiverem abertas para tanto. Mas a princípio, existe algo que podemos fazer. É preciso difundir que ser machista é uma temível falha de caráter. É preciso que as pessoas se envergonhem de manifestar machismo. É preciso, enfim, que uma declaração machista seja vista como uma declaração racista ou homofóbica. É mais difícil pra quem foi domesticado perceber tudo isso. Mas sempre é tempo.   





segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O caso Karina Veiga e o tabu do sexo anal

Há algumas semanas, fotografias íntimas de uma menor de idade foram divulgadas na internet por um ex-namorado dela. Por mais absurda que a atitude dele tenha sido, muitos internautas simplesmente ignoraram o nível de maldade do cara e acharam muito divertido ajudar a divulgar as fotos constrangendo e ridicularizando a garota.

O que eles acharam tão engraçado? A menina havia praticado sexo anal. Sim, parece que fazer o papel passivo numa relação anal torna uma pessoa um ser inferior. Deve ser por isso que homens (heterossexuais otários) insistem tanto em fazer sexo anal com a parceira, mas são ortodoxos sobre a proibição de que elas toquem a região anal deles: Eles acham que mulheres são inferiores, que ser penetrada é o papel delas.

Lembram-se de quando eu falei sobre o blog misógino Testosterona? Uma das postagens que analisei falava que as mulheres deveriam fazer sexo anal com os namorados no dia posterior ao dia dos namorados como agradecimento pelos presentes recebidos.

Uma das postagens mais asquerosas desse mesmo blog era um vídeo no qual um rapaz pedia sexo anal para a namorada. Quando ela recusava, ele a deixava inconsciente com um golpe na cabeça a fim de violentá-la. Então o infame vídeo apresentava as vantagens do sexo anal: é mais apertado, mais quente e mais degradante pra mulher. 


Exato, MAIS degradante. Porque pelo visto, ter a vagina ou a boca penetradas já é degradante. Porque essa é a visão do machismo: Mulheres são inferiores, logo os papeis que elas ocupam são inferiores. Essa visão se estende a tudo: profissões, interesses, produtos culturais, aparência. Tudo que é entendido como feminino é culturalmente considerado inferior.     

É dessa misoginia social que nasce a homofobia. O desprezo pelo homem que se rebaixa a uma posição feminina sendo afeminado ou sendo penetrado na relação sexual. Porque é sempre o passivo que é ridicularizado. As piadinhas destroem quem "dá o cu", mas não quem o penetra, mesmo numa relação entre dois homens. 

Lendo um texto do blog do Samuel Farias sobre a violência sofrida por essa moça, descobri os detalhes. Ela namorava um homem maior de idade, que inclusive a havia agredido fisicamente antes.

Eu já suspeitava que isso poderia ter acontecido. Um homem que torna púbicas fotos íntimas de sua parceira sexual sem o consentimento dela, além de um crápula sem caráter, certamente é abusivo. Num outro post, eu falei sobre como evitar parceiros misóginos. Infelizmente, a Karina foi vítima de um deles.

Esse homem achou legal se relacionar com uma garota menor de idade. Não sei qual a idade dele, mas se ele tiver mais que 25, creio que ele poderia ter pensado um pouco melhor antes de se envolver com ela. Qual o problema? O problema é que uma garota adolescente é inexperiente e não está ainda preparada para lidar com questões de relacionamento como uma mulher adulta.

Quando ele pediu a ela para se deixar fotografar em poses sensuais, ela confiava nele. Ela não imaginou que algum dia ele usaria isso contra ela. Mas pode ter certeza de que ele já tinha tudo planejado, como o Hyde de "50 Tons de Cinza". A intenção dele era destruí-la psicologicamente caso ela o deixasse.

Claro, ele já contava com o que aconteceria na internet, pois ele conhece bem a cultura que o privilegia. Ele sabia que, embora ele também estivesse nas imagens, quem seria humilhada publicamente era ela. Porque para um homem, é legal ter provas de que ele fez sexo, para uma mulher, não. Simplesmente porque existe uma relação ideológica arbitrária que associa a manifestação sexual feminina a mau caráter.

Sabe, eu poderia escrever muito sobre as coisas horríveis que li na net. Em vez disso, vou dizer apenas que quem escreveu qualquer insulto contra ela é um péssimo exemplo de ser humano. Porque ninguém é tão simplório ao ponto de achar que uma moça merece ser humilhada por ter feito sexo anal e ter deixado o parceiro fotografar o ânus dela. Precisa ser alguém muito ruim para divulgar essas fotos, criar perfis fakes em nome da vítima, ridicularizar o corpo dela. Precisa ser alguém muito misógino para dizer que ela mereceu passar por isso por "não ter protegido a gruta".

Qual a lógica de pensamento desses vermes? Eles são piores que o ex dela. Porque o cara pelo menos tinha uma relação com ela, mas esse povo da internet ficou se intrometendo na vida alheia. Certamente porque estão desempregados e não fazem sexo. Mas falta do que fazer não é justificativa para agredir ninguém. Portanto, se você conhece alguém que tirou vantagem desse crime e divulgou essas fotos ou fez "piadas" cruéis, afaste-se dessa pessoa. Porque a gente não precisa nem de amigos(as) misóginos(as), quanto mais de namorados(as).

E outra coisa. É evidente que esse pessoal ficou tão obcecado pelo que aconteceu com a moça porque sentiu inveja. No fundo, se trata de um monte de desejos reprimidos. Princípio de psicanálise: ninguém tenta destruir algo (ou alguém) a troco de nada. Quem desdenha quer comprar. Se ridicularizou Karina Veiga, queria estar em seu lugar.

Fazer o passivo de uma relação anal não é errado. Deixar o parceiro tirar fotos íntimas não é errado. Ela não merece ser julgada por nada. O que aconteceu nesse caso foi o já conhecido (desde Amanda Todd) cyberbullying machista. E isso tem que acabar.