domingo, 28 de abril de 2013

Ser grosseiro no trânsito prova masculinidade?

É senso comum a ideia de que mulheres têm menos capacidade que homens para dirigir veículos. Ouvimos isso desde a infância, embora não exista nenhum comando no carro que dependa dum pênis para ser acionado. Além disso, o seguro de carros dirigidos por mulheres é mais barato devido à menor probabilidade de acidentes graves.

Historicamente, mulheres sempre foram reservadas para o espaço privado, enquanto que o espaço público era dos homens. Mulheres no espaço público, até hoje, ainda são agredidas porque incomodam os homens.

Pode parecer bobagem falar que em 2013 homens não gostam de ver mulheres na rua. Mas a verdade é que isso é um processo em muitos casos inconsciente. Por isso existe uma reação tão intensa de rejeição a mulheres na rua, e isso começa quando ainda somos meninas.

O assédio nas ruas, que começamos a enfrenter muitas vezes antes da puberdade, não se trata apenas de "elogios". Esse assédio é um processo através do qual homens mostram para mulheres o lugar delas; mostram que, se elas desejam estar no espaço público, esse espaço pertence a eles.

É claro que a misoginia social também é um fator responsável pelo especial prazer que se tem em agredir meninas e mulheres. E o trânsito é um excelente lugar para se fazer isso. Em primeiro lugar porque, dentro do carro, as pessoas têm a ilusão de estarem protegidas, como num tanque.  Em segundo lugar porque se convencionou que ser agressivo(a) no trânsito é "legal".

Por que? Simples, porque a agressividade é uma característica culturalmente atribuída ao masculino, e tudo que é masculino é visto como superior. Então o jeito que homens costumam dirigir é o mais "certo" ou "eficaz". O jeito que mulheres costumam dirigir "atrapalha", porque o legal é andar por aí arrebentando todo mundo, que é coisa de "macho".

Agora eu vou provar por absurdo como essa ideia de agressividade no trânsito é estúpida:

"Considerando que é legal dirigir correndo, haja vista o sucesso do automobilismo como esporte, então é legal andar correndo na rua, porque ser maratonista é um esporte que faz muito sucesso também".

Não é verdade, ninguém anda correndo na rua a menos que esteja treinando pra uma maratona. Isso é uma contradição, logo provamos por absurdo como dirigir feito louco(a) é uma atitude estúpida. Afinal, a gente tira carteira de habilitação, e não carteira de piloto de Stock Car.

Uma vez, eu vinha pela seguinte rua, sendo que a preferência era minha. Olhando na foto (Google maps), é possível ver que não há nenhuma placa de "Pare" ou "Dê a preferência" para mim, certo? Há apenas uma faixa de pedestres, diante da qual devo parar caso haja alguém esperando para atravessar a rua, mas caso contrário, tenho o direito de seguir em frente. 


Bem, é muito raro o carro que vem pela outra via parar porque ela tem maior movimento. Ali do outro lado da rua, tem uma placa de "Dê a preferência" para quem vem, mas ela é sistematicamente ignorada. E o pessoal que vem por lá realmente acha que quem vem desse lado deve parar. 

Um dia, eu estava entrando nessa via. Estava vindo um elemento (acompanhado de uma mulher) num gol GV preto. Quando eu estava entrando, mesmo a preferência sendo minha, ele jogou o carro e gritou "Vaca" para mim. 

Para mostrar a placa diante dele:


   
Tudo isso para provar que a preferência era minha. Mesmo assim, o elemento se achou no direito de me agredir verbalmente e me discriminar por gênero. Por que?

Porque é especialmente prazeroso para esse tipo de homem agredir mulheres. A questão do trânsito é só um pretexto. Não importa como a mulher dirige. Pode ser uma piloto, o desgraçado vai achar que ela dirige mal só porque é uma mulher. 

Ah, e uma dica especial: Se o rapaz que você está pegando xinga outra mulher assim, termine a relação com ele. Se xinga uma, xinga todas. Misoginia não é seletiva, tenha sempre em mente.   

Encerro dizendo a minhas colegas condutoras que não se preocupem. Não importa como vocês dirijam, vocês nunca conseguirão agradar, então, façam o que é melhor para vocês. Dirijam de forma responsável e cooperativa, contribuam para um mundo melhor e mais seguro, e, principalmente, desconsiderem toda e qualquer tentativa de agressão misógina.

Anexo baliza:

O Posto BR desenvolveu um aplicativo para o Facebook chamado Estaciona Bonito. É bem legal para treinar estacionar em vagas paralelas, que é uma manobra meticulosa e exige uma certa experiência. Vou deixar uma receitinha: Procure uma vaga com pelo menos 6 bloquinhos de calçada. Você deve contar enquanto emparelhada com o carro atrás da vaga. Se a vaga tem o tamanho bom, siga em frente, deixando uma distância lateral de aproximadamente um metro. Emparelhe com o carro da frente da vaga de modo que as lanternas traseiras dele estejam no início de seu vidro traseiro. Não vá mais para a frente que isso enquanto não tiver prática. Gire a direção de modo que os pneus virem para o lado da vaga e engate ré. Siga até que o carro esteja quase perpendicular à vaga. Então vire a direção para o lado oposto ao da vaga e continue dando ré. Vá devagar para não bater, mas se você tiver voltado o volante no ponto certo, o carro deve ficar arrumadinho de primeira. ;)

Se enconstar na guia é porque você foi muito na primeira manobra e deixou pra voltar depois do ponto. Se ficar longe da guia, é porque você voltou a direção muito cedo. Se o carro estiver torto, mas praticamente dentro da vaga, é só voltar a direção toda para o lado da guia e ir um pouco pra frente que ele fica reto. Se não, você vai ter que sair e começar de novo. Mas não vai ter jeito, você vai ter que fazer isso muitas vezes até aprender. Comece em vias largas, mas não se preocupe com pessoas impacientes. Todo mundo um dia começou.        

sábado, 13 de abril de 2013

Culpabilização da vítima: Horror nas Maldivas, horror no Brasil

Há algumas semanas, o caso de uma menina de 15 anos sentenciada a ser chicoteada nas Maldivas chocou o mundo. Ela havia sido estuprada pelo padrasto, inclusive engravidou. Em vez de ser amparada e receber apoio psicológico, ela foi condenada por ter "feito sexo antes do casamento". Fornicação, que pelas leis do país em questão é passível de punição, necessita da participação de pelo menos duas pessoas. Mas em 2011, 90% das pessoas sentenciadas à receber chicotadas eram mulheres.

Felizmente, quase dois milhões de assinaturas numa petição online conseguiram sensibilizar o presidente das Maldivas, e ele pediu que o promotor responsável reconsiderasse o caso. É claro que o caso dessa garota é só mais um dentro duma cultura explicitamente patriarcal. Mas a pressão mundial nesse caso abre um precedente importante que pode resultar numa mudança da forma como as mulheres são tratadas nas Maldivas.

Por mais estranho que pareça, é muito comum que vítimas de estupro sejam responsabilizadas pela agressão. O filme Preciosa (2009) retrata perfeitamente uma situação assim. O pai de Preciosa começa a abusar dela aos três anos, e a mãe dela fica com raiva da filha por ciúme do marido. O homem prossegue com o abuso sistemático da garota, que se sente tão indefesa que nem ousa reclamar, lutar ou gritar. Sua mãe então vê o estupro como sua filha transando com seu homem.

Há uns dois dias, Gerald Thomas abusou da panicat Nicole Bahls diante das câmeras. Aparentemente, um homem que gosta de exibir o pau em público achou que uma moça de vestido curto diante dele está lá para ser molestada. Muitas pessoas comentaram que Nicole não tem o direito de reclamar, pois trabalha no "Pânico".

Eu sei que o programa "Pânico" é estruturalmente misógino. Apresenta mulheres como animais domésticos que não têm direito de pensar. Mas não é porque o programa é um lixo que os funcionários vão perder o status de pessoas humanas. Mesmo porque, toda essa justificativa só aparece quando uma mulher é molestada, mas quando homens apanharam fazendo suas famosas "brincadeiras", rolou processo judicial com direito a amplo apoio midiático.

Existe uma tendência social em se colocar respeito como algo por que mulheres precisam lutar, como se não fosse um direito natural de cada ser humano. E isso acontece por uma razão ao mesmo tempo muito simples e muito trágica: mulheres não são entendidas como seres humanos. Mulheres precisam o tempo inteiro provar que merecem entrar num restrito grupo ao qual homens têm acesso desde o nascimento pela mera posse de um pênis.

Tive a oportunidade de ler um excelente texto abordando esse lamentável incidente. Gostaria de destacar a explicação que o autor, Marcos Donizetti, dá sobre mulheres que culpam vítimas de estupro e/ou abuso sexual. Afinal, o que acontece na cabeça de mulheres que culpam a vítima? Acontece que o abuso de outra mulher deixa claro para todas as outras o quanto elas não estão seguras:

"Essa mulher tem uma fantasia de segurança que funciona nos seguintes termos: 'se eu me comportar segundo a Lei, não sofrerei abuso. Preciso agir segundo o código, calar minha voz e esconder meu desejo, e assim estarei segura'. Diante da violentada, essa fantasia cai por terra, 'se ela foi abusada, eu também poderei ser', e esse pensamento é por demais insuportável. A saída mais rápida é culpar essa outra que não cumpriu o código, uma defesa ruim que mantém a ilusão de segurança" (DONIZETTI, 2013).
Mulher se apresentando como objeto
    
Sendo assim, podemos pensar que a culpabilização da vítima acaba sendo um mecanismo de defesa das mulheres numa patriarquia. Enquanto a violência sexual continuar sendo utilizada no controle da sexualidade feminina, a culpabilização das vítimas continuará trazendo alívio para uma parte das mulheres escravizadas pela cultura.

Não sei se existe uma solução, mas ainda sonho com o momento em que as mulheres se perceberão e reconhecerão umas às outras como pessoas, e não como seres de segunda classe. Porque neste dia, toda mulher será digna de respeito independente do número de parceiros, das roupas que veste, ou do trabalho que exerce, simplesmente por que mulheres são humanas.

Uma pessoa nunca se coloca como objeto. Os outros é que a encaram como tal.
 
 

domingo, 7 de abril de 2013

Poupatempo Guarulhos - Resenha

O Poupatempo de Guarulhos ajudou bastante os(as) moradores(as) de Guarulhos, pois antes o mais próximo era o da Luz. Oferece vários serviços: RG, Carteira de trabalho, CNH, atestado de bons antecedentes... Tem também uma agência da Bandeirante (companhia de energia elétrica). No pátio da entrada tem até uma lanchonete.

Normalmente, sou bem atendida. Mas quando precisei tirar um RG, tive problemas para conseguir a isenção de taxa. Como eu havia sido servidora pública, levei meu atestado de exoneração. A funcionária disse que não valia, que só servia carteira de trabalho. Eu tentei argumentar que uma servidora pública após ter deixado o emprego não teria isso na carteira de trabalho, mas não adiantou. A funcionária foi consultar uma tal supervisora e voltou dizendo: "Ela disse que você tem que estar pagando taxa".

Foi muito desagradável ter tido um direito negado por despreparo dessas funcionárias, portanto recomendo muita cautela. Peça sempre que assinem e/ou carimbem os documentos que você apresentar e sempre anote o nome dos responsáveis. É importante para um eventual processo judicial.

Há estacionamentos por perto e pontos de ônibus na porta.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Sapatos: Algumas soluções

Hoje vou falar sobre uma questão que atinge, mais cedo ou mais tarde, toda mulher: o salto alto. Usar ou não usar?

Salto alto realmente faz mal. O uso diário pode acarretar várias sequelas, pois ele sobrecarrega os joelhos e leva a uma alteração do centro de massa do corpo. O ideal é guardar os saltos muito altos e finos para ocasiões especiais, nas quais você vai ficar bastante tempo sentada. 

No dia a dia, é melhor usar sapatos sem saltos ou com saltos baixos e grossos. O salto anabela também oferece mais sustentação para os pés.

A questão é que não se deve abrir mão de saúde em nome de beleza. Mesmo porque, beleza sempre foi e sempre será questão de gosto. Padrões de beleza ainda são, até hoje, utilizados para controlar mulheres. Sapatos com salto reduzem a mobilidade das mulheres. Será que saltos altos não são considerados bonitos porque restringem nossa liberdade?

Há alguns anos, eu soube de uma palmilha de transferência de peso fabricada nos EUA chamada Insolia. Ela  tem sido vendida no Brasil há alguns meses, e eu já comprei alguns pares. A ideia dela é bastante simples: distribuir o peso do corpo igualmente pelo pé.

Quando usamos saltos, o peso do corpo fica concentrado no peito do pé. O que essa palmilha faz é dividir o peso para o calcanhar, trazendo um alívio para os dedos. Ela também tem um efeito corretivo na postura.

Pesquisei bastante a respeito. Os desenvolvedores dizem que a colocação de Insolia nos sapatos aumenta em aproximadamente três vezes o tempo de utilização. Ou seja, aqueles escarpins de bico fino que você só aguenta usar por 15 minutos passariam a ter uma tolerância de 45 minutos.

Claro, as palmilhas não fazem milagre. Se os sapatos são ruins, talvez seja melhor aposentá-los logo. Ela redistribui o peso, mas não corrige problemas de atrito.

Eu achei uma ideia legal, mas não deu certo no Brasil. Eu tenho alguns palpites para as razões disso. Logo de cara, o preço estava muito alto. Como a palmilha precisa ficar fixa no calçado, é preciso um novo par para cada par de sapatos. Pagar R$49,90 mais frete, que foi o preço inicial, é inviável. Além disso, o menor tamanho, o "P", serve sapatos 35-36. Assim, as muitas mulheres que calçam 33-34 tinham que utilizar um tamanho maior.

O site brasileiro ainda está vendendo, agora por R$10,90 o par, mas só até acabar o estoque. Uma pena. Acho que se o produto fosse recolocado enfatizando as questões de saúde e não somente o conforto, conseguiria um público maior no país.    

Eu experimentei. Acho que é um bom investimento nos pés. Mas mesmo com elas, não acho legal usar saltos por muito tempo. O meu conselho é que, se você vai andar muito, use sapatos baixos e confortáveis. Falo isso porque tenho um par de sapatilhas Via Uno que acabam com meus pés. São baixas, mas o atrito tira pele dos tornozelos, e o bico, apesar de redondo, aperta os dedões. Só consigo usar por pouco tempo e com fita protetora. A verdade é que vários tipos de sapato podem machucar os pés, inclusive tênis e chinelos. O único jeito de descobrir é experimentando.