quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Misoginia social: O caso das atendentes

Dia 19/12/2012, eu estava na fila do posto de gasolina do Carrefour Vila Maria, quando notei que a fila à direita da minha paralizou. Havia acontecido algum problema na cobrança e o cliente não conseguia concluir o pagamento.

Não sei o que aconteceu, mas sei o que ouvi. O cliente gritou com a funcionária, a chamou de xucra e de filha da puta. Falou que ela que tinha errado, estacionou o carro fora do caixa, acendeu um cigarro e continuou com as ofensas.

Eu fiquei estarrecida com o nível de agressão. Olhei para ela, visivelmente abalada dentro da cabine. Uma moça jovem, bonita e afrodescentente.

O fato é que muita gente acha divertido agredir mulheres. Se elas estão em postos baixos na hierarquia duma empresa, parece que o direito à agressão se torna legal. Sendo afrodescendente então, o sujeito acha que pode insultar à vontade.

Qual o objetivo ao se insultar alguém? Vai resolver mais rápido o problema? É óbvio que não, a intenção é destruir a outra pessoa.

Hoje à tarde, eu estava na sala de espera dum oftalmologista, quando um homem resolveu causar. Para efeito de identificação no texto, vou chamá-lo simplesmente de elemento. Ele falou em voz alta com a atendente, reclamou de uma suposta demora para que ela fizesse a ficha dele, foi mega agressivo por nada. Falou que não tinha o dia inteiro e que quanto mais ela demorasse a fazer a ficha, mais ele esperaria.

Foi constrangedor, ninguém gostou, mas ninguém falou nada. Ficou um silêncio constrangedor na sala. A atendente, visivelmente abalada, explicou que o atendimento era por ordem de chegada.

Ele continuou reclamando, foi ridículo. Eu comentei com minha mãe que se fosse um homem no atendimento, ele não teria falado daquele jeito. Claro, apesar de não termos falado nada, as expressões de nossos rostos explicitavam nossas opiniões.

Ele ficou bravo e começou a dizer em voz alta, para todos ouvirem, que brasileiros estavam acostumados a abaixar a cabeça, mas que ele reclamava mesmo, não se importava se ninguém o apoiava. Falava essas besteiras para uma mulher ao lado dele, mas ela não respondia, ninguém ouvia a voz dela.

Minha mãe foi chamada para o atendimento. Lá dentro, ela comunicou a ocorrência para o médico, e logo um homem veio ajudar a atendente. Nesse momento, a atendente chamou o elemento para assinar a ficha.

O homem que ajudava a atendente, outro médico, estava prestes a organizar a ordem do atendimento, quando o elemento decidiu causar mais uma vez. Apontou para uma senhora na sala e falou: "Aquela senhora estava aqui antes que eu, mas eu fui chamado antes dela".

Que babaca, né? Quer dizer, o problema dele não era ser atendido, mas desqualificar o trabalho da funcionária. Ou seja, queria agredi-la a qualquer custo.

Sabe, até eu queria que ele fosse embora logo, imagina ela? Ela deve tê-lo passado na frente para que ele parasse de encher o saco, mas ele viu nisso mais uma brecha para ofendê-la. Ele pretendia ficar no "mimimi" impunemente, mas eu não aguentei. Sim, eu me intrometi. Falei: "Você só quer encher o saco, está agredindo a moça desde que chegou. Se fosse um homem, você não falaria essas coisas. Seu machista".

Claro que ele não gostou. Ele gosta de mulheres iguais à acompanhante dele, que ouvem tudo caladas.  Mas não negou que era machista, não. Só disse que "reclamaria" pra qualquer pessoa. Besteira, o lance dele era agredir uma mulher jovem, bonita e que trabalha fora. Aos olhos dele, ela era uma presa fácil, já que ele era "cliente" do consultório no qual ela trabalhava. Ele pensava que podia agredi-la a torto e a direito sem consequências.

Mas eu falei na cara dele que ele estava errado e pontuei a verdadeira razão por trás da escrotice dele. E ele continuou resmungando, no limite disse pra eu não me meter no que não era chamada. Gracinha, né? Faz barraco e não quer que ninguém fale nada? Infantil, no mínimo. Eu falei que discriminação é da conta de todos, então ele falou pra eu ir dar uma queixa na delegacia.

Então eu tirei uma foto dele. Aí a acompanhante dele avisou pra ele, mas eu ainda não ouvi a voz dela! Só percebi porque ele começou a reclamar. Primeiro me desafiou, disse pra eu mandar pra Interpol (Como é ignorante!), depois disse que eu não tinha permissão pra fazer isso, que ele não tinha me cedido direitos de imagem...

Ficou com medo, né? Pra quem tinha tanta certeza de que estava certo... Deu o show, depois ficou bravo ao ser documentado. Eu respondi: "Eu sou fotógrafa profissional e sei que posso fazer isso." Então ele largou a seguinte pérola: "Você não é tão inteligente quanto pensa".

Exato, na visão dele, como sou mulher, tenho que ser burra! Pois é, em nenhum momento eu o desqualifiquei. Mas ele precisou me insultar de alguma forma, ainda que sutilmente. Claro, esse tipo de homem (misógino) sente especial prazer em agredir mulheres. Principalmente se forem jovens, bonitas e inteligentes, nada os irrita mais. Ainda mais que eu fui a única pessoa na sala que o enfrentou.

Ele continuou na choradeira dele, dizendo que eu podia ter problemas. Meu pai disse: "Cala a boca, rapaz!". Esse tipo constuma respeitar homens, mas ele ainda continuou resmungando um pouco depois disso.

Mais tarde, o médico que testemunhou tudo pediu desculpas pelo ocorrido. Mas não assumiu em nenhum momento que o elemento era machista, nem que havia acontecido uma discriminação ali. Só deu uma explicação classista. Falou algo como: "Tem gente que nunca teve um convênio, quando entra numa firma e consegue um, acha que tem direito a fazer discursinho".

Sabe, até concordo que o elemento estivesse numa crise de se achar muito especial naquele momento. Pode ser que seja o primeiro convênio da vida dele. Mas não podemos ignorar o teor misógino das agressões dele. Ele não ofendeu nenhum homem lá dentro e se calou pouco tempo depois de meu pai ter se dirigido a ele. E tenho certeza de que ele não falaria daquele jeito com o chefe.

A questão é que existe uma misoginia estrutural muito bem estabelecida. Tão bem estabelecida que as pessoas sequer consideram sua existência. Mas é só observar e perceber que é muito maior a probabilidade de uma mulher ser agredida gratuitamente que um homem. Porque existe todo um prazer social na destruição de mulheres, e isso aparece nas coisas mais banais, desde o julgamento de um produto cultural que agrada mulheres até quando a imprensa dá uma notícia sobre um crime no qual a vítima foi uma mulher. Sempre existe um prazer na desqualificação do que é feminino, sempre existe um desdém do sofrimento feminino, e sempre existe uma culpabilização das mulheres pelas agressões que sofrem. E não, agressões não fazem parte da vida. Acontecem porque existe gente ruim que agride. Se existisse uma luta séria contra a misoginia, boa parte das agressões contra mulheres acabariam.        

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Aposta


Ser uma agente secreta não é nada fácil.
Cá estou eu no cassino dum hotel luxuoso. Os pés doendo num par de saltos Christian Louboutin e passando frio em um vestido de noite decotadíssimo.
Minha meta? Um misterioso agente secreto europeu. Ele recebeu documentos com informações importantes sobre uma resistente organização criminosa conhecida como 9500. O meu trabalho é conseguir interceptá-lo e obter os documentos. 
Recebi hoje de manhã informações da agência diretamente em meu tablet. Já vi a foto do indivíduo. Loiro, olhos castanhos, alto, malhado.
Altamente treinado. 
Parece que a missão vai ser bem divertida.


Algumas horas antes


Do alto das escadas, vejo meu alvo conversando com uma bela mulher. Ela tem longos cabelos loiros e olhos verdes. Usa um vestido verde oliva e sandálias de salto alto grosso.
Ele usa um terno caríssimo e completo. Está até de colete sobre a gravata azul, provavelmente de seda.  
São apenas 17h14. Eles estão sentados no saguão do hotel e ela, provavelmente uma agente tão secreta quanto eu, abre uma maleta e lhe entrega um envelope de papel pardo tamanho A4.
Ele é charmoso e carismático, sorri o tempo inteiro. Ela, inicialmente sisuda, vai aos poucos relaxando. Que previsível. Tenho certeza de que eles vão fazer sexo em poucos minutos.
Eles não me veem.
Mas eu os vejo. Ele abre o envelope e tira algumas folhas de dentro. Não consigo ver o conteúdo. Ele sorri olhando os papéis. O que poderia ser tão divertido?
Ela também sorri. Os dois parecem de acordo.

                * * *




Mais tarde, em meu quarto, eu me arrumo para ir ao cassino. Sei que os dois estarão lá.
Ele está na mesa de pôquer, todo de smoking, impecavelmente chique. Ela também está lá, mas não está jogando. Anda pelo salão despreocupadamente, atraindo olhares masculinos por todo lado.
Passo algum tempo observando. Ele está ganhando de todos na mesa. Bem, eu de fato não sei jogar. Mas não faz diferença, pois vou entrar na mesa para perder.
Meu plano é muito simples. Já percebi que o sujeito é um mulherengo, pois passou todo o fim da tarde no quarto da agente loira.
Eu vou me juntar à mesa, vou perder todas as minhas fichas e não terei nada para apostar além de meu corpo. Vou apostar a chave de meu quarto, o que ele certamente vai aceitar. E certamente vai ganhar.
Quando ele for cobrar a aposta, eu estarei no quarto dele, pegando os documentos.

                * * *


Ele já saboreava seu dry martini, sorrindo maliciosamente enquanto limpava as fichas de todos. O cara realmente era bom no jogo.
Após ter vencido todas as rodadas, ele se levantou e começou a passear pelo salão. Excelente oportunidade para uma abordagem mais direta.
Fui até o bar e pedi um dry martini. O detalhe é que eu odeio dry martini, acho amargo e excessivamente alcoólico. Mas parece ser o álcool dele, e eu não vou perder um jogo de aproximação.
Um barman atrapalhado começou a sacudir uns destilados transparentes dentro duma coqueteleira enquanto me apoiei no balcão. Na hora de servir a bebida no copo, um pedacinho de gelo teimava em cair na taça. Após três tentativas, o líquido finalmente caiu sozinho.
“Ficou bom?”, perguntou o barman inseguro. Puxa, esse deve ser o folguista, não é possível.
“Cadê a azeitona?”, ouvi uma voz masculina com marcante sotaque estrangeiro a meu lado. “Não se serve dry martini sem azeitona.”
Era ele. Que oportuno.
“Estamos sem...”, respondeu o barman.
“Que incompetência”, retrucou o atraente agente.
“Vamos ver se pelo menos o gosto é bom”, respondi, já pegando a taça. Tomei um gole e fui absurdamente decepcionada pelo sabor. Sei que não gosto de dry martini, mas não lembrava que era tão ruim.
O agente leu minha expressão imediatamente. “Ruim?”
“Eu não entendo muito de dry martini”, respondi sorrindo. “Talvez você possa ser melhor juiz.”
Passei então o dedo no líquido no interior da taça. Fiquei olhando para os seus olhos e percebi que eles acompanhavam os movimentos de meus dedos. Passei os dedos úmidos na borda da taça, então os molhei novamente e os levei até seus lábios.
Logo ele sorriu malicioso. Empurrei delicadamente meus dedos dentro de sua boca, e ele os aceitou.
“Hum”, ele exclamou.
“Bom?”, perguntei.
“Sim. Sua pele é deliciosa. Só que o rapaz aqui precisa aprender a fazer dry martini.”
Virei então e vi que o barman nos observava. Mordi o lábio para não soltar uma gargalhada, mas o agente continuou olhando para mim.
“Você tem lindas mãos”, ele disse, acariciando minha pele. “Pena que preciso voltar para a mesa de pôquer.”
“Posso te acompanhar?”, perguntei.
“Seria um prazer”, ele respondeu, já pagando o barman impaciente com nosso jogo de sedução.
Ele ofereceu o braço para que eu entrelaçasse o meu, e eu aceitei. Chegando à mesa, ele pediu licença para se sentar.
Como eu não ia jogar, permaneci de pé, atrás da cadeira dele. Apenas observei, num primeiro momento.
Por várias rodadas, ele saiu vencedor.
Até que eu decidi tomar parte na jogatina.
“Difícil não notar, você ganhou de todos. Quero ver ganhar de mim”, falei, já me juntando à mesa com expressão desafiante.
Ele não pareceu intimidado. “Sinta-se à vontade para tentar me vencer.”
Assim que me sentei, fiz questão de parecer entender do jogo.
Mas não durou muito. Em duas rodadas, eu já estava sem nada. E claro, ele já havia ganhado tudo.
“E agora, a senhorita vai deixar a mesa?”, perguntou um dos membros. Os outros caras da mesa perceberam que eu estava flertando com o vencedor, mas não desistiram de mim.
“Seria uma pena”, disse o agente, enquanto bebericava seu dry martini.
Ao ver a expressão pedante dele, senti tanta raiva que, mesmo prestes a perder mais uma vez, deixei um ar de determinação tomar conta de meu rosto.
Foi quando peguei a chave de meu quarto e lancei no morro de fichas. Todos em volta ficaram boquiabertos diante do significado de minha aposta.
O agente deu um sorriso malicioso, mas não falou nada. Apenas continuou o jogo, visivelmente satisfeito.
Exatamente como previsto, ele venceu e fez questão de colocar a chave de meu quarto no bolso. 
Tolinho. Eu que venci.

                    * * *

Eu já estava tomando um champanhe calmamente, quando ele veio me abordar. Apesar da aparência contida, ele não conseguia evitar certo ar ansioso, como um moleque de dezoito anos animado com a perda da virgindade. 
Rodando a chave na mão, ele começou a falar. “Ainda não sei seu nome.”
“Isso é realmente necessário?”
“Isso o quê?”, ele perguntou, parecendo confuso pela primeira vez desde que o conheci.
“Saber meu nome”, respondi de forma desinteressada.
Ele recuperou seu sorriso confiante. “Não é imprescindível, mas eu preciso te chamar de alguma forma.”
Fiquei em silêncio, desviei o olhar e tomei outro gole de champanhe.
Ele riu. “Você é durona. Gosto disso.”
Senti a mão dele buscando a minha. Ao toque de sua pele, não evitei o contato. Ele levou minha mão a seus lábios e a beijou.
“Já sei. Vou chamá-la de Princesa Rubi em homenagem a seus cabelos vermelhos.”
Não consegui evitar sorrir ao ouvir o galanteio. “Seu galinha...”
“Eu não sou galinha. Sou galante. Tenho um especial apreço por mulheres.”
“Hum, certo...”, respondi.
“Você é muito cética.”
“Eu sou muito esperta, isso sim.”
Ele riu novamente e, mais uma vez, rodou a chave na mão. “Mais tarde eu passo em seu quarto para cobrar a aposta.”
Foi embora se achando o vencedor.
Coitado. Mal sabia ele que eu não estaria lá para ser cobrada.

                * * * 

Foi uma longa espera. Passei um bom tempo aguardando o momento em que ele deixaria seu quarto. Quando finalmente o avistei todo arrumado e perfumado com uma rosa vermelha na mão, percebi que era hora de agir.
Confesso que até senti alguma pena, mas precisava cumprir minha missão. E tinha muito pouco tempo.
Assim que entrei em seu quarto, fui surpreendida com um enorme ramalhete de rosas vermelhas sobre a mesa de centro. Certamente ele aguardava outra mulher para mais tarde.
Deve admitir, o cara tem energia.
Mal me aproximei da mesa, ouvi a voz dele. “Escolhi rosas vermelhas para combinar com seus cabelos.”
Virei assustada e o encontrei de pé diante de meus olhos com uma rosa na mão. “Era pra combinar com seus sapatos também”, ele continuou, então olhou para meus pés. “Não imaginei que você trocaria seus saltos por essas botas.”
Continuei em silêncio, pensando numa solução. “Mas eu gostei do figurino. Esse ar esportivo lhe cai bem.”
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele sorriu seu sorriso malicioso. “Surpresa, agente Blutig Pfeffer?”
“Você estava me esperando?”
“A agente Linda já havia me prevenido. Enquanto você nos observava há algumas horas, ela me entregava suas fotos.”
“Linda é aquela com quem você transou?”
“Uh, qual é o seu problema com sexo casual? Linda é minha amiga, assim como eu gostaria que você fosse...”
“Eu não vou ser sua amiga nunca. Você é pedante, arrogante, mentiroso, mulherengo...”
“Competente”, ele falou com uma forte intensidade em seus olhos. “Se eu não fosse competente, não a teria surpreendido.”
Engoli a saliva. Um pesado silêncio caiu por alguns instantes. Eu estava profundamente machucada pelo erro que cometera.
“Eu não vou te machucar. Quero trabalhar junto com você.”
“Não quero sua ajuda.”
“Claro que não quer. Mas nesse caso, precisa.”
“Não preciso de sua ajuda.”
“Claro que precisa. Não sou eu que tenho os tais documentos que seu chefe pediu.”
“Eu não acredito em você. Meu chefe disse que os documentos estariam em seu poder.”
Ele deu uma risada irônica e maliciosa. “Você confia nesse seu chefe, hein?”
“Não fale assim dele. Você nem o conhece.”
“Claro que conheço. Eu não viria para uma missão no Brasil sem saber que a maior organização de agentes secretos daqui é a Eremitas Urbanos. E que Ricardo Boero é o líder.” 
Estarrecida quando ele falou o nome de meu chefe, dei alguns passos para trás. Ele estava certamente instruído a meu respeito, e eu só podia atribuir isso a algum traidor dentro da organização.
“Calma, Pfeffer, não é que você pensa...”
“Como você sabe o que eu penso?”
“Você está visivelmente assustada...”
“Eu não tenho medo de nada...”
Num movimento rápido, peguei a adaga escondida numa bainha atada a minha perna e o ameacei. “Fique longe de mim!”
Ele parou, erguendo os braços e deixando as palmas das mãos abertas. “Tudo bem, eu não vou atacar...”
Foi quando dois agentes armados trajando preto invadiram o quarto. Felizmente, percebi pelo barulho que o perigo se aproximava e me joguei contra o agente.
Já estávamos no chão quando os disparos começaram.     
O agente reagiu rápido, e, ainda comigo apoiada em seu peito, pegou sua pistola e disparou contra os assassinos, atingindo os dois.
Rapidamente, eu me levantei, e ele se levantou em seguida.
“Bem que eu mereço um beijo depois de ter te salvado...”, ele falou.
“Você não me salvou! Eu te salvei. Se eu não tivesse te jogado no chão, agora você estaria estirado no chão e banhado em sangue. Agora vambora que não temos tempo a perder...”
“Ai, por que você passa o tempo inteiro partindo o meu coração?”

            * * *

Após o ataque, se tornou irrefutável para mim a necessidade de investigar aqueles dois agentes. Era evidente que eles estavam seguindo um de nós, talvez ambos.
Como nós dois fomos alvos das balas, decidi aceitar a ajuda do agente.
“Temos que descobrir a verdade sobre esses agentes”, falei, enquanto andávamos até meu quarto.
“Posso te chamar de Pfeffer?”
“Não.”
“Por que não? É um nome tão bonito... É alemão?”
Como não respondi, ele continuou. “É um nome bem diferente. E você tem jeitinho germânico.”
Permaneci em silêncio.
“Vou te chamar de Princesa Rubi, então...”
“Fique à vontade.”
“E meu nome é Armand, a propósito.”
“Que apropriado. Você está Armand alguma pra mim?”, perguntei e ri da piada imbecil.
Ele ironizou uma risada. “Que gracinha, tem ideia de quantas vezes já ouvi essa piada aqui no Brasil?”
“Muitas, tenho certeza.”
“Eu esperava de você uma tirada mais original.”
“Ah, sinto muito. É tudo que tenho.”
Entramos em meu quarto cautelosamente, tomando as providências tradicionais para proteção. Não havia nenhum intruso, mas o quarto estava todo bagunçado.
“Você tinha algo importante aqui?”, perguntou Armand.
“Você pensa que sou alguma amadora?”, respondi.
“Como imaginei”, ele falou suspirando.
“Meu tablet está comigo. Agora precisamos seguir a pista dos agentes invasores.”
“Vamos procurar Linda. Ela certamente vai nos ajudar.”
“Você confia nela?”
“Ela é minha colega de agência.”
“Hum... Então vocês trabalham juntos?”
“Quando não estamos nos divertindo...”
Gracinha. Só para lembrar que eles transam.
Quando chegamos à porta do quarto de Linda, minha intuição não me mandou uma mensagem agradável. Senti cheiro de sangue. Era tão forte que tomava minha garganta ao ponto de o gosto se espalhar por minha boca.
“Armand”, falei. “É melhor entrar com cautela.”
Não parecia existir energia viva dentro do quarto. Não ouvi respiração ou coração batendo lá dentro.
Armand encostou a orelha na porta, ao mesmo tempo erguendo a pistola. Ele então arrombou a porta e invadiu. Eu entrei logo atrás, mas senti o cheiro de morte antes.
Abaixei minha arma, resignada.
Linda estava morta sobre a cama.
“Linda...”, sussurrou Armand.
Os cabelos loiros dela estavam cor de barro, incrustados por sangue. Ela havia claramente sido espancada, pois tinha vários hematomas no rosto. Sua pele estava bem pálida e o forro da cama banhado em sangue. A saia do vestido estava erguida e não havia calcinha.
Ele se aproximou do corpo e tocou delicadamente o rosto gelado. Havia um corte na garganta. Pobre Linda. 
“Eles a violentaram.” Não era uma pergunta.
“Creio que sim”, respondi de qualquer forma.
Ele puxou a saia respeitosamente e fechou as pernas dela logo em seguida.
 “Nós vamos pegar quem fez isso com ela”, disse eu.
“Todos eles”, disse ele.

* * *

Armand notificou a agência dele sobre a morte da colega, e uma equipe chegou logo em seguida para os procedimentos padrão.
Um funcionário entregou a ele um pen-drive com as novas diretrizes da missão diante dos últimos acontecimentos.
O líder da organização criminosa 9500 já havia conseguido recuperar os papéis. Linda já os tinha em mãos, mas não conseguiu nos entregar a tempo.  Eles a encontraram antes e o resto já sabemos.  
Recebi uma mensagem de Ricardo em meu tablet me dando novas instruções.
“Agente Pfeffer, mudança de protocolo. A agente Linda da organização AVB foi morta por integrantes da 9500. Ela tinha em mãos papéis com importante informação sobre a 9500. Sua missão é recuperar a informação acessando o cofre na sala do diretor. Por medo de interceptação por hackers, eles mantêm essas informações em papel. Caso deseje, a AVB ofereceu o auxílio do agente Armand.”
“Armand”, falei. “Parece que vamos até a sede da 9500. Você sabe onde fica?”

* * *

Optamos por invadir a 9500 pelo terraço do prédio. Um helicóptero da AVB nos deixou no topo de um prédio vizinho, então precisamos pular de um prédio para o outro. Mal descemos alguns degraus, precisamos enfrentar três seguranças.
Todos eles portavam armas de fogo, mas Armand e eu conseguimos desarmá-los e derrubá-los antes que ligassem o alarme.
“Será que algum deles estava no grupo que matou Linda?”, perguntei.
“Não creio. Para conseguir derrubar Linda, é preciso muito mais competência.”
Seguimos em frente, rumo à sala do diretor. Precisamos descer vários lances de escada, e, no processo, acabamos nos esquecendo de destruir uma das câmeras de segurança.
Significando que, quando chegamos ao último corredor, fomos surpreendidos por mais quatro guardas.
“Precisamos ser rápidos”, falei. “Não podemos permitir que o diretor fuja com os papéis!”
Logo de cara, um deles avançou com uma pistola na mão, mas eu o derrubei com um chute rápido. Enquanto isso, Armand já aplicou uma voadora no seguinte.
Em seguida, com um golpe de capoeira desarmei o terceiro. Foi quando o último resolveu falar.
“Devíamos ter matado você também, AVB – Armand.”
Eu parei então, um pouco atônita. O outro resolveu falar. “Nós vamos estuprar essa aí na sua frente.”
Armand ficou furioso. “Então vocês são os vermes?”
“O que nós fizemos com a loira foi bullying, perto do que vamos fazer com a ruiva.”
Ao ouvir a ameaça, Armand ficou totalmente descontrolado e avançou sobre o criminoso, dando a chance para que ele o ferisse com uma faca.
“Armand, não!”, gritei. Minha distração foi rápida, mas foi tempo o suficiente para que o outro elemento desse um tiro em meu tornozelo esquerdo.
Desgraçado.
Gritei mais uma vez, dessa vez pela dor, e caí no chão. Armand, já perdendo sangue, tinha mais dificuldade de vencer a briga. Enquanto isso, o outro meliante veio em direção a mim, que já estava caída no chão.
Mas ele não contava com o fato de que eu me curo muito rápido. Conforme ele se aproximava, eu fingia que não poderia me levantar.
Dei uma olhada em meu tornozelo e reparei que a bala já havia sido rejeitada pela pele. Em poucos minutos eu estaria pronta para enfrentá-lo.   
“Eu vou te comer primeiro, depois vai ser a vez do meu amigo. Depois vai ser a vez do diretor.”
Enquanto ele dizia isso, começou a passar a mão entre minhas pernas.
Eu fiquei fazendo cara de nojo, o que não era difícil. Mas deixei ele se distrair um pouco olhando meu corpo, achando que ia saciar seus impulsos sádicos. Fiquei gemendo de dor e fingindo impossibilidade de defesa.
“Depois, vamos chamar todos os outros seguranças...” Quando a mão dele chegou a meus seios, sua expressão estava completamente imersa em seus desejos nojentos.
Então eu quebrei seu pescoço com as mãos.
Ouvi um estalo, e o corpo dele caiu mole sobre minhas pernas.
Argh.
Joguei o corpo dele longe. O barulho distraiu o outro criminoso, dando tempo para Armand tomar o controle da briga.
Com o criminoso sob seu corpo, foi fácil para Armand dar vários socos. O sangue foi espirrando, mas Armand prosseguiu impiedosamente, destruindo os olhos do elemento até que ele ficou cego.
O criminoso estava praticamente desfigurado quando me aproximei. Armand então se levantou, deixando o corpo lânguido no chão.
“Você não vai matá-lo?”, perguntei.
“Ele não merece tanta misericórdia. Prefiro que ele viva os últimos dias dele desfigurado e cego”.
Armand virou para o lado e viu o corpo do outro perto da parede.
“Você quebrou o pescoço do cara com as mãos?”
“Sim”, respondi.
“Impressionante. E eu podia jurar que você havia levado um tiro no tornozelo... E agora você está de pé.”
“Sim, eu me distraí e aquele imbecil aproveitou a brecha...”, falei, ainda inconformada com meu erro.
Ele ainda parecia impressionado com alguma coisa, mas não mencionou. “Bom, vamos entrar na sala do chefão antes que ele fuja.”
Entramos na sala do diretor. A princípio achamos que ele já tivesse fugido, mas ele estava agachado debaixo da mesa, pateticamente tremendo.
O cara estava morrendo de medo.
Esse é o líder da organização?
“Cadê o cofre?”, falei em tom de voz normal.
Como ele continuou em silêncio, Armand saiu da sala e buscou o corpo do segurança cujo pescoço eu havia quebrado.
“Está vendo o seu subordinado?”, Armand perguntou. O diretor ergueu os olhos apavorado. “Foi essa poderosa agente que quebrou o pescoço dele com as próprias mãos.”
Armand então balançou o pescoço do cadáver para que não restasse nenhuma dúvida.
O diretor então se levantou, afrouxando a gravata no pescoço. Como um ser tão covarde chega à liderança, eu francamente não entendo. 
Com as mãos trêmulas, ele abriu o cofre e entregou os papéis. Ainda tremendo, ele se ajoelhou no chão e passou as mãos sobre a cabeça.
Olhei para Armand com expressão de estranhamento. “Vamos embora?”
“Vamos”, ele respondeu.

* * *

De volta ao hotel, onde tudo começou.
Em meu quarto, Armand e eu conversávamos durante a janta. Ele havia me entregado os papéis assim que chegamos, pois fazia parte do acordo firmado entre a EU e a AVB.
 Ele tinha dificuldade de segurar o garfo devido às ataduras em sua mão direita, mas mesmo assim saboreava sua refeição prazerosamente. Após aquelas intensas horas compartilhadas com Armand, percebi que prazer era sua constante busca.
“Depois de tudo o que aconteceu, você ainda me vê como um mulherengo decadente?”, perguntou Armand.
“Creio que só como mulherengo”, respondi.
Ele deu um sorriso malicioso de satisfação.
Eu sorri de volta. 


Fim