sábado, 15 de junho de 2013

O dia em que pessoas foram presas por porte de vinagre

Ontem foi um dia que vai mudar a história política do Brasil. Para melhor, eu espero. Dia 13/06/2013 havia sido uma quinta-feira como qualquer outra, mas, assim que cheguei em casa no final da tarde, as notícias começaram a pipocar pela internet.

Manifestantes ainda estavam se reunindo quando a PM começou a efetuar detenções arbitrárias. Várias pessoas, incluindo um jornalista da Carta Capital, foram presas por portar vinagre. Eu não fazia ideia da razão pela qual o vinagre era tão importante, mas logo descobri que ele atenua os efeitos do gás lacrimogênio. A PM decidiu revistar as pessoas e impedi-las de portar uma substância que podia protegê-las da ação da PM, mesmo não havendo qualquer lei regulamentando. O desejo deles era realmente massacrar os participantes do protesto. 

E claro, o tratamento das mulheres detidas era misoginamente desrespeitoso, com direito a pancadas de cassetete nas costas. Não vejo muita diferença entre um PM enfiar o cassetete debaixo da saia duma garota em 2013 porque ela está participando duma manifestação popular e um militar enfiar um cassetete na vagina duma garota em 1969 porque ela era acusada de subversão. No fundo, a motivação é a mesma: ódio por uma mulher que luta. E sempre o cassetete, esse símbolo fálico utilizado para mostrar quem tem poder.  

Ao longo da noite, a PM de SP foi mostrando suas verdadeiras intenções. Protagonizou chocantes cenas de violência contra uma manifestação pacifica. Simplesmente começou a atirar balas de borracha contra todos(as), tendo inclusive atingido uma jornalista da Folha e um fotógrafo, ambos nos olhos.

Foram agressivos, desagradáveis, cometeram atos de extrema truculência, tudo isso com base numa suposta presença de vândalos que sequer chegaram a agir. Atiraram até contra quem estava apenas gravando ou fotografando o que acontecia, por que será? Talvez porque entre essas imagens seja possível ver um PM quebrando o vidro duma das viaturas?     

Manifestantes que aguardavam atendimento na emergência do Hospital Santa Catarina foram levados de lá em meio a agressões por PMs. As pessoas mais velhas tiveram um déjà vu, ficaram assustadas, pois ainda guardam a violenta memória da ditadura.

Um verdadeiro desastre político orquestrado por ninguém menos que o governador Geraldo Alckmin. Um desastre baseado em tratar manifestação popular como vandalismo, tratamento esse reiterado por diversos grupos: Veja, Globo, Record, Bandeirantes, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, entre outros. Um desastre que agora leva a um generalizado "Fora Alckmin". 

Num país que viveu 21 anos de ditadura militar, um episódio como esse tem um simbolismo muito importante. Acontece que tanto a mentalidade do governo como a mentalidade da polícia não mudaram. Ainda não existe no Brasil um ambiente seguro para reivindicações sociais. A Polícia Militar não é responsável por garantir à população o direito à manifestação, mas por controlar a população em nome do Estado. Cada bomba de efeito moral, aquele gás repugnante que o Choque joga como confete em manifestações, custa R$500,00. Dinheiro público usado para controlar o público. Portanto, considero extremamente válido que a ONU tenha sugerido o fim da Polícia Militar no Brasil. 

A Polícia Militar brasileira está constituída numa ideologia truculenta, direitista, misógina, racista, homofóbica, classista e conservadora. Ainda guarda a ilusão do AI-5 a cada passo, faz uso de uma fé pública absurdamente questionável e se utiliza de argumentos de "desacato a autoridade" como instrumento de repressão. Se alguém estava esperando um momento para pensar numa reforma total da polícia brasileira, o momento é agora. Pois pela primeira vez em muito tempo uma ação arbitrária da polícia atingiu muita gente que não costuma ser atingida por ela. Se eles tiveram coragem de cometer os absurdos que cometeram sabendo que eram fotografados e filmados, imagina o que fazem na periferia invisível diariamente?

Foto de Narcisa Adrastea
Há apenas uma semana, a PM também cometeu absurdos na Marcha das Vadias de Guarulhos.  Influenciados por pedidos de manutenção da ordem feitos por um padre, os policiais seguiram a Marcha até que decidiram prender uma garota que teria tirado a blusa, ato aparentemente proibido apenas para mulheres. Como não conseguiram abordá-la, levaram outra garota sob alegação de "desacato". Ameaçaram inclusive quebrar o equipamento de quem documentava tudo. Claro que, como se tratava de mulheres, a misoginia estava implícita o tempo inteiro. Houve insinuações de que as meninas eram feias, insultos que degradam mulheres através da sexualidade, enfim, demonstrações daquela raiva de mulheres que não ficam em casa fazendo serviço doméstico e servindo de escrava sexual para o marido. 

Foto de Narcisa Adrastea
Toda essa violência de gênero foi aplicada pelo simples fato de que acontecia uma manifestação pacífica. O problema é que a PM é completamente desqualificada para enfrentar esse tipo de situação. 

Num país democrático e laico, é inadmissível que cidadãos tenham medo do que a polícia pode fazer quando saem às ruas para se manifestar. Especialmente quando esse país tem histórico de ditadura militar, é profundamente preocupante que manifestantes sejam detidos para "averiguação", porque isso significa que a PM tem a mesma visão de 1964: Manifestantes são subversivos a serem detidos como presos políticos.     

Edição 15/06: Acabei de me lembrar dum lance. No último show do Bon Jovi em São Paulo, dia 06/10/2010, a PM que fez a revista em mim e minha irmã foi gratuitamente grossa. Só pelo gosto de ser grossa. Ela não tinha identificação no uniforme, pois procurei. Ela não usava termos como "por favor" ou "obrigada", mas pior que isso, ela era ríspida. "Abre a bolsa!", ela falou. Achei estranho, mas abri. Depois que acabou ela olhou pra mim ameaçadoramente e disse: "Agora some daqui!". Eu não respondi porque sabia que não ia adiantar. Ela ia me prender por desacato, e, como ela tem fé pública, o que ia valer era a versão dela. 

Contando isso só pra lembrar que a violência da PM aparece nessas "pequenas coisas". Um monte de gente com baixa autoestima e instinto agressivo contando com garantias legais especiais. O que acontece quando uma pessoa desequilibrada que sente tesão em agredir sabe que pode prender alguém alegando qualquer coisa porque sua palavra legalmente funciona como garantia? E se essa mesma pessoa contar ainda com o fato de que, se uma pessoa tenta argumentar com ela, isso pode ser tratado como crime? Ela aproveita para impor humilhações. 

Tudo bem, não é toda a polícia que é assim. Mas não deveria ter ninguém assim na polícia. Quem seleciona? Quem coloca poder nas mãos de gente com complexo de inferioridade? Será que agora vamos enfim discutir o fim da polícia militar? Assim espero. Porque o sofrimento de todos(as) esses(as) manifestantes não pode ter sido em vão. Assine você também a petição pela desmilitarização das polícias brasileiras, faça parte dessa luta.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Crime de ódio contra mulheres: A realidade que ninguém vê

O sujeito só matava mulheres. O perfil das vítimas era sempre o mesmo. Mulheres jovens que estavam sozinhas no ponto de ônibus. Ele as matava a facadas. A última delas, uma jovem de 17 anos, não resistiu ao corte na garganta e morreu logo em seguida.

César Tralli deu a notícia no SPTV. Ele mencionou o perfil das vítimas. Ele sabia que o elemento só matava mulheres. Sabia também que ele não roubava nada. Mas em nenhum momento ele falou que o desgraçado matava mulheres porque elas são mulheres. Ele não falou que esses crimes foram feminicídios. Ele não falou que o criminoso é misógino.

Ele noticiou crime de ódio como crime comum.

Não é preciso dizer que o criminoso será julgado por crime comum. Provavelmente por homicídios triplamente qualificados:  por motivo torpe (Por que ele as matou mesmo? Ah, porque elas são mulheres jovens e bonitas. Mas a justiça vai concluir que ele as matou por nada), por meio cruel, com uso de facas, e sem condições de defesa para as vítimas.

As moças morreram. Ele vai passar uns seis anos na cadeia.

Todos os dias acontecem, em média, doze feminicídios no Brasil. No Canadá, acontece um a cada seis dias.

Mas não existe misoginia.