domingo, 27 de abril de 2014

Mulher, loira ainda por cima

Número de acidentes com carros conduzidos por homens é impressionantemente maior.
Era uma vez, uma casa de shows em Moema chamada Citibank Hall. Essa casa não tinha um estacionamento muito grande, então alugava estacionamentos próximos a fim de atender à demanda. Um deles ficava no subsolo de um prédio na Alameda Jurupis. O acesso a esse estacionamento era conseguido através duma rampa. Na saída, a subida era bastante íngreme, o que arrancava algumas cantadas de pneu, mas nada sério. O suficiente, porém, para que homens semiadolescentes se considerassem no direito de mexer com as condutoras, claro.

Página da Safernet: não contém opção "misoginia"
Eu aguardava meu carro chegar quando um elemento da fila disse em voz alta: "Mulher, loira ainda por cima". Ele falou isso sem qualquer constrangimento apesar da presença de várias mulheres por perto. Não parece grave? Okay, vamos imaginar então que houvesse várias pessoas negras na fila, e o sujeito tivesse dito: "Mulher, negra ainda por cima". Qual a intenção de uma pessoa ao fazer um comentário que desqualifica uma minoria ao lado de pessoas que pertencem a esse grupo?

Tudo é dito por uma razão. É evidente que se alguém diz "negro, quando não caga na entrada, caga na saída" perto de pessoas negras, esse alguém está querendo (consciente ou inconscientemente) agredir as pessoas negras. Quando algum "amigo" nosso diz coisas ofensivas contra as mulheres em geral, ele está na verdade dizendo aquilo para nós, só que não diretamente.
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Nessa mesma ocasião, quando chegou minha vez de subir a rampa, eu obviamente fui assediada também. Precisei parar devido ao trânsito, e, quando puxei o freio de mão, um moleque a meu lado disse: "Autoescola". Sim, porque o fato de eu puxar o freio de mão para não precisar ficar segurando o freio de serviço numa ladeira implica que eu preciso voltar a ter aulas de direção. Só que eu não fingi que não ouvi como a maioria das mulheres costuma fazer. Eu olhei para ele e perguntei: "O que foi?". Ficou apavorado o gracinha. Disse que não era nada. Esses merdas são todos assim. Corajosos quando pensam que não vai dar em nada, mas cagam nas calças quando recebem a intimação.  

Já ouvi "mulheres são todas vagabundas", "mulher é tudo cobra", "as mulheres têm que aprender a se sustentar". Todas essas afirmações foram feitas por homens que faziam parte de minha vida e que tiveram (ou têm) meu afeto. Por que esses homens disseram essas coisas pra mim? Ou, melhor dizendo, por que homens dizem essas coisas perto de mulheres?

Em primeiro lugar, existe um processo social de misoginia que leva as pessoas, as mulheres inclusive, a sentirem um prazer especial em agredir mulheres. É isso que leva falhas de mulheres dirigindo a serem tratadas com maior rigor que falhas de homens. Também é isso que leva a chefia a prestar mais atenção nas funcionárias que em funcionários. E, claro, também é isso que leva professores e professoras a tratar alunas com maior rigidez. Sabe como é mais fácil interpelar uma mulher que um homem? Pois é.        

Em segundo lugar, existe uma tolerância social à discriminação por gênero que não existe com outros tipos de discriminação. A prática de racismo é criminalizada pelo código penal brasileiro. Mas homofobia, por exemplo, não é. E mesmo assim, consta entre as opções de denúncia do site Safernet, que não oferece nenhuma opção para discriminação por gênero especificamente.

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A questão é que não se vê no senso comum "piada de mulher" como um problema. Diariamente, veículos de comunicação são desrespeitosos com as mulheres; seja publicando corpos femininos fatiados ou duvidando de vítimas de estupro. Ou seja, o Safernet é só um exemplo do quanto a misoginia é severamente ignorada em nossa sociedade. Sendo assim, não é surpreendente que pessoas se sintam à vontade para dizer abertamente que veem mulheres como seres inferiores. Afinal, a sociedade apoia.