quarta-feira, 21 de maio de 2014

Palavra de misógino II

Atendendo a pedidos, publico mais um post com pérolas que misóginos soltaram diante de meus olhos que a terra há de comer. É claro que não necessariamente um homem que diz merdas como as dos exemplos a seguir é misógino, mas tenham em mente que conheci pessoalmente a maioria dos trastes, portanto sei do que estou falando. E sempre deixo a pergunta: Se o sujeito não é misógino, por que ele diz (ou escreve) em alto e bom som para mulheres de sua convivência escutar (ou ler) coisas desrespeitosas contra as mulheres? 

"A mina mó escrota, os pelos na teta."; misógino demonstrando desrespeito por garota que não havia depilado os seios. É misoginia sim, porque uma de suas formas de manifestação é através do desrespeito e controle do corpo feminino.

"Não gosto que a mina me lamba. Prefiro que beije, e sem batom, de preferência."; misógino demonstrando sentir nojo da saliva e da maquiagem feminina.

"Eu vou colocar som no carro, minha mãe que se vire pra pagar."; misógino que, com 21 anos na cara, achava que a mamãe tinha obrigação de pagar pelo som de seu carro na hora em que ele queria colocar. 

"E a louça?"; pergunta feita por vários misóginos quando mulheres ousam reclamar da opressão que sofrem. É baseada na ideia de que mulheres são inferiores, portanto devem fazer apenas serviço doméstico, que é braçal. Também reflete a crença de que mulheres devem ser as únicas responsáveis pelo serviço doméstico, ainda que trabalhem fora e/ou tenham renda. É o tipo de frase com conteúdo intrinsecamente discriminatório, dita apenas com intenção de agredir. Nesse caso posso afirmar com certeza absoluta que qualquer elemento que a proferir é misógino de carteirinha e DNA. Uma resposta boa é perguntar se ele já lavou a louça dele. Afinal, se veio agredir, deveria no mínimo ter uma casa limpa, certo?

"Deveria ter ficado na cozinha"; ver exemplo anterior.

"Não pago nem um centavo por 'isso'"; comentário feito por misógino na página da Veja, aquela revista de direita, sobre uma moça que leiloou a "virgindade" da vagina. Ele demonstra achar que o corpo feminino é um objeto, que ele pode avaliar e chamar de "isso". Para começo de conversa, ela estava cobrando para fazer sexo pela primeira vez, não para vender o corpo; existe uma mega diferença aí. Prostitutas prestam serviço, não se vendem. O corpo feminino não é um objeto que pode ser comprado e vendido, e qualquer um que pensa desse jeito é misógino.

"Você arranjou um cara pra beijar, não um namorado"; misógino da FEA na tequilada da Poli de 2008. O elemento disse isso para mim após eu ter beijado um de seus amigos. O verme acha que mulheres querem namorar qualquer imbecil, não tem nem o que dizer sobre isso. ¬¬

"Mulher, loira ainda por cima"; misógino ridicularizando mulheres num estacionamento quanto à forma como dirigiam.

domingo, 18 de maio de 2014

Guarulhos sem água e o racionamento que não existe

É assunto do momento a falta d'água na Grande São Paulo. O sistema Cantareira chegou a quase 8% de sua capacidade, até que, na última quinta-feira, seu volume morto começou a ser explorado numa polêmica e arriscada manobra eleitoreira.

O que não tem sido divulgado é que a falta d'água já é realidade em várias partes da região metropolitana há muitos anos. Em Guarulhos, a água costumava sumir das torneiras por volta das 16h00 todos os dias há mais de dez anos. Em bairros da periferia da capital, o rodízio já é realidade há trinta anos.

Há uns dois meses, o racionamento de água em Guarulhos se agravou. Devido à crise do Cantareira, Guarulhos foi penalizada com falta d'água em dias alternados. Agora temos água de rua dia sim, dia não. São cerca de 20 horas com água, e 28 horas sem, porque acaba acontecendo um descompasso devido ao liga e desliga. E olha só que interessante: o racionamento não acabou depois que o volume morto do Cantareira passou a ser utilizado.

Só que, todas essas semanas, tenho ouvido a imprensa noticiando que o volume morto do Cantareira seria utilizado para "evitar o racionamento". Mas como evitar, se já está acontecendo? Não faz o menor sentido. Parece que o governo do estado não atua em Guarulhos. Ou talvez a realidade seja muito mais perversa. Talvez Geraldo Alckmin esteja ciente de que a prefeitura de Guarulhos está nas mãos do PT desde 2001 e tenha optado por perder os/as poucos/as eleitores/as de Guarulhos e manter os/as muitos/as eleitores/as de São Pulo City. Ou seja, aqui em Guarulhos a gente não pode nem cagar direito para que a galera dos Jardins possa lavar carros e regar plantas. Gostaria de saber quantas das 11.519.314 pessoas que colocaram o PSDB por mais quatro anos no governo de SP estão precisando levar um balde de 20kg pra jogar na privada cada vez que vão ao banheiro.  


E é impressionante como a Globo insiste que não há racionamento na zona metropolitana. Parece que Guarulhos é um universo paralelo fora da responsabilidade do governo do estado. Está tendo racionamento em Guarulhos há anos, e, pelo visto, aqui não causa nenhum problema para as bombas. Agora estamos com ainda menos água disponível para que a capital não fique sem, e o governador não perca votos. Só gostaria que isso fosse divulgado, porque não é justo.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Todo o racismo de The Vampire Diaries

Há duas semanas, eu defendi minha tese de mestrado, que versa sobre a forma como a sexualidade feminina é mostrada no seriado estadunidense The Vampire Diaries.  

Embora minha pesquisa seja focada em gênero, isso não impede que eu perceba o quanto a etnia negra é tratada com desdém na série. Aproveitando os acontecimentos recentes (a absolvição de Danilo Gentili por ter oferecido bananas a um rapaz negro e a banana atirada no estádio para Daniel Alves), decidi fazer uma análise do racismo na série. 

O seriado de TV The Vampire Diaries é baseado numa série homônima de livros young adults escritos pela autora L.J.Smith (também chamada de Lisa Jane ou Ljane). Embora eu goste dos livros de Lisa, devo admitir que são absurdamente brancos. A maioria das protagonistas são loiras de pele branca, como é o caso da Elena Gilbert original. Em seguida temos as brancas de cabelos castanhos ou negros e, por último, as ruivas. Eu li quase todos livros dela e posso afirmar com segurança que não vi nenhum personagem negro na fase anos 1990. Nos mais recentes, pós politicamente correto, devo ter visto uma senhora negra que provavelmente cumpria a cota. 

Desenho de Bonnie no site oficial de L.J.Smith
Na adaptação para o seriado, os produtores fizeram de tudo para tornar a história o menos cosmopolita possível, de acordo com o gosto estadunidense. Os irmãos Salvatore, que eram italianos nos livros, se tornaram estadunidenses descendentes de italianos. As bruxas druidas se tornaram bruxas de Salém, o que também permitiu dar um lugar para personagens afrodescendentes na trama. Damon Salvatore passou de olhos negros para os olhos azuis do galã Ian Somerhalder. E foi aí que surgiu um problema.  

Nos livros da série "The Vampire Diaries", Elena tem uma amiga bruxa chamada Bonnie McCullough. Ela é ruiva, sardenta, descendente de druidas escoceses e tem um "affair" com Damon Salvatore, o irmão malvado. 

Fonte: CW
Bonnie Bennet (Kat Graham) é a bruxa de Salém do seriado. Kat Graham, que também é cantora, é o que chamamos de "negra branca"; está na mesma categoria de Naomi Campbell. Ela tem olhos verdes, traços "delicados" e cabelos alisados. A outra categoria de negras que aparecem na mídia são as "exóticas", tipo Grace Jones e Alek Wek.

Ao longo das temporadas da série de TV, ficou claro que não havia intenção de colocar Bonnie e Damon como um casal. Ninguém disse oficialmente que isso tem algo a ver com o fato de Kat ser negra, mas é difícil negar a essa altura.

Fonte: CW
Não só devido a comentários de "fãs" dizendo que "essa preta macumbeira não está a altura dum príncipe como Ian Somerhalder", mas também porque Bonnie aparece raramente com um interesse amoroso, e, até a quarta temporada, apareceu beijando praticamente apenas parceiros negros. Ela parece namorar Jeremy Gilbert, irmão de Elena, há algum tempo, mas eles parecem casal gay em novela da Globo. Foi mais falado que eles fizeram sexo do que visto. Só na quinta temporada eles começaram a aparecer em cenas com algumas demonstrações de afeto, mas mesmo assim, muito leves. E Jeremy já havia aparecido em cenas de sexo com Anna na primeira temporada.

É curioso que num seriado com tantas cenas de sexo, a única personagem negra do elenco permanente nunca apareça em nenhuma delas. Parece que uma mulher negra não pode ter sexualidade, ou que o corpo da negra não é atraente. Pra mim deixa bem claro quem é o público alvo do programa; com quem os produtores desejam criar identificação. A loira Caroline Forbes está sempre cercada por pretendentes, isso não é aleatório. 

Também é revoltante que boa parte da audiência tenha se virado contra Bonnie pela mera possibilidade de que ela tivesse um relacionamento com Damon. Enterrar um casal com uma fanbase tão sólida como Bamon só porque a maior parte da audiência acha que o galã branco não pode se relacionar com uma personagem negra só prova o quanto racismo é institucionalizado e naturalizado em nosso mundo. 

Fonte: CW
Eu fiquei particularmente indignada ao ver que meninas escreviam "burn the witch" como uma mensagem de ódio contra Bonnie. Queimar bruxas foi parte de um processo misógino chamado inquisição que aconteceu no século XVI. Não tem como uma alusão a esse tipo de violência ser engraçada. Não é engraçado que milhares de mulheres foram torturadas e queimadas vivas porque a igreja decidiu culpar mulheres por tudo de ruim que acontecia no mundo. Como afirma Regina Navarro: 

"Desde a Antiguidade as mulheres detinham um saber próprio, transmitido de geração em geração: faziam partos, cultivavam ervas medicinais, curavam doentes. Na Idade Média seus conhecimentos se aprofundaram e elas se tornaram uma ameaça. Não só ao poder médico que surgia, como também do ponto de vista político, por participar das revoltas camponesas. Com a “caça às bruxas”, no século XVI, 85% dos acusados de feitiçaria eram mulheres. Milhares delas foram executadas, na maior parte das vezes queimadas vivas"  (LINS, 2011, grifo da autora).



Fonte: CW
Ou seja, a audiência do seriado, composta principalmente por mulheres de 18 a 32 anos, não apenas manifestou racismo, mas misoginia também. 

Atualmente, The Vampire Diaries está na quinta temporada e o casal Bamon de fato foi abortado. Mas considerando o número de agressões que Damon cometeu contra Bonnie, é preferível que a história continue assim. O Damon do seriado trata mulheres muito mal, principalmente as negras. É vergonhoso que meninas ao redor do mundo realmente sintam desejo por um personagem abusivo por um fetiche de buscar um lado bom escondido dentro dum criminoso. Damon se aproveita de garotas hipnotizadas, ou seja, as estupra. Damon mata amigos e parentes de Elena quando está bravo com ela. Damon desdenha as bruxas quando estão fazendo feitiços, ou seja, trata o trabalho de mulheres negras como algo sem importância. Eu realmente acho difícil redimir um personagem que faz coisas assim só porque ele é divertido e bonito. O número de garotas torcendo para o casal Delena é a prova viva do quanto as mulheres estão condicionadas a desejar homens que as desrespeitam.