domingo, 14 de dezembro de 2014

O misógino profissional e liberdade de expressão

Há cerca de um mês, falávamos sobre um misógino profissional que pretendia vir ao Brasil para doutrinar outros misóginos. O sujeito, Julien Blanc, ensinava basicamente técnicas para manter mulheres em situação de abuso; ler as ilustrações explicativas dele é como ler uma tabela de como reconhecer relacionamentos abusivos.

Imagem postada por Julien como guia para manter uma mulher no relacionamento
A imagem ao lado, postada por Julien no Instagram e compartilhada no Twitter, foi chamada de "checklist". O círculo rodeado pelas palavras "Física Violência Sexual" abriga no centro "Poder e Controle", o que deixa bastante explícito que ele estava perfeitamente ciente de que ensinava seus abjetos seguidores a cometerem violência de gênero.

Deixo a tradução completa abaixo a título de explicação (sentido horário):



Use intimidação

  • Deixe-a com medo
  • Destrua coisas
  • Mostre armas
  • Destrua propriedade
  • Abuse de animais

 Use abuso emocional

  • Deixe-a triste
  • Faça-a sentir-se mal e culpada
  • Chame-a por insultos
  • Humilhe-a
  • Faça-a pensar que está louca
  • Jogue jogos mentais

Use isolamento

  • Controle o que ela faz, com quem ela sai ou conversa, o que ela lê, onde ela vai
  • Limite os envolvimentos externos dela
  • Use ciúme para justificar suas ações

 Negue, culpe e minimize

  • Faça pouco do abuso
  • Não leve as preocupações dela a sério
  • Diga que o abuso nunca aconteceu
  • Mude a responsabilidade (para ela)
  • Diga que foi ela que causou 

Use crianças

  • Faça com que ela se sinta culpada pelas crianças
  • Use as crianças para mandar mensagens
  • Use visitação para assediá-la
  • Ameace levar as crianças embora 

Use privilégio masculino

  • Seja quem define os papeis masculinos e femininos
  • Tome todas as decisões importantes
  • Trate-a como empregada
  • Aja como o senhor do castelo


Use abuso econômico

  • Impeça que ela consiga um emprego
  • Faça-a pedir dinheiro
  • Dê-lhe uma mesada
  • Não permita que ela tenha acesso ao orçamento familiar
  • Tire o dinheiro dela

Use coerção e ameaças

  • Ameace machucá-la
  • Faça-a  retirar acusações
  • Induza-a a fazer coisas ilegais
  • Ameace abandoná-la, suicidar-se, denunciá-la para o serviço social 

Eu não vou analisar cada item dessa lista neste texto, pois pretendo fazer isso em outra oportunidade. Mas já aviso que se você conhecer um homem que apresenta alguma das condutas apresentadas nessa lista, é melhor se afastar dele. Porque isso é basicamente um guia de como ser um parceiro abusivo.  


Muita gente ficou indignada (com razão) e resolveu lutar contra a atividade econômica que esse sujeito exercia, que vem a ser uma mistura de apologia de crime com discurso de ódio. O Brasil foi só um dos países que negou visto ao elemento em questão.

Teve gente que foi contra essas ações com base em "direito" a liberdade de expressão. A esse respeito, digo que as  pessoas têm liberdade de expressão, mas podem e devem ser responsabilizadas por crimes de discurso. Exercer liberdade de expressão inclui ser responsável pelos efeitos do discurso proferido. E de mais a mais, nós temos o direito de boicotar um homem que fez carreira ensinando outros homens a abusar de mulheres.

Acho que o episódio mais bizarro que testemunhei sobre esse assunto rolou na universidade. Um colega de classe disse em plena aula sobre estigmas sociais que foi contra o veto a seu visto, mas não teve muito espaço para argumentar. Ninguém na sala concordou com ele. Sabe quando todo mundo faz: "naaaaaaaaaooooooo"? Então...

A princípio ele chamou Julien Blanc de "paquerador", mas logo em seguida ouviu-se uma voz masculina se referindo a Julien como "o cara que ensina estupros", então o colega corrigiu para "assediador". A professora então se manifestou dizendo que pessoas são barradas em países pelos critérios mais arbitrários, e que Julien pode ser considerado um terrorista; logo sinalizar o passaporte dele é uma decisão diplomática.

Eu penso que não tem como defender a entrada de Julien no Brasil. Ele não vinha pra cá como turista; sua agenda estava oficialmente programada. Ele vinha com um propósito claro, que era cometer o crime no qual consistia seu trabalho. Certamente, se ele ensinasse gays a fazer coisas assim com homens hétero, meu colega de classe não estaria naquela tranquilidade.