sábado, 26 de dezembro de 2015

Tentando ensinar professoras/es

Há algumas semanas, minha colega Paula, que trabalha comigo no projeto EMMA - Estudos sobre a Mulher na Arte-Ciência da EACH - USP, me convidou para dar uma palestra numa escola pública da periferia de São Paulo. Uma amiga de Paula, professora da escola, pedira sua ajuda devido a dois eventos de violência de gênero. 

Num deles, uma garota havia aceitado ficar com um garoto (idades desconhecidas), o que levou os amigos do garoto a acreditarem que a menina deveria ficar com eles também. Tal situação levou a menina a ser vítima de assédio pesado na hora do recreio, quando os garotos a perseguiam. 

A outra situação foi algo como um revenge porn (Pornô de vingança). Uma garota tirou uma foto íntima, mandou para um garoto, e ele decidiu espalhar a foto para todos os colegas. O grupo de meninos começou a assediar a menina por conta disso. Não se sabe se o garoto em questão desejava se vingar da garota ou se ele simplesmente queria se auto-afirmar diante dos colegas; o fato é que houve um desrespeito à intimidade dela.

Os professores e professoras da escola não souberam lidar com essas situações, tendo inclusive quem insinuasse que a culpa era das meninas. Com base nesse cenário deprimente, Paula e eu preparamos uma palestra para trazer algum conhecimento básico sobre questões de gênero a essa turma de docentes.

Eu preparei primeiro um power point sobre cultura do estupro, mas, quando mostrei para Paula, ela disse que a turma não faria conexão daqueles conceitos com o que acontecia na escola. Então eu ofereci uma outra apresentação introdutória que utilizara em fevereiro numa aula sobre gênero dum curso de verão. Era uma apresentação curta porque eu dividia três horas de aula com mais três colegas e, extremamente básica porque, de quatro dias do curso, apenas um era sobre gênero.

Combinamos então que Paula começaria a palestra introduzindo conceitos básicos como sexo, gênero e orientação sexual, para preparar o terreno para a parte mais dura, que é violência contra a mulher.

Assim que chegamos, fomos bem recebidas pela coordenadora, que agradeceu bastante por nossa presença.
Mas, logo quando ela estava nos apresentando, explicando a nossa presença na escola, ela comentou os dois casos de violência, e era possível ouvir risadas entre os professores e professoras. Na hora eu fiquei boquiaberta e disse para Paula que eu fazia questão de comentar os casos no momento de minha apresentação.  

Quando a Paula começou a expor seu conteúdo, uma moça que não parava de tagarelar resolveu interromper dizendo que, para ela, o corpo feminino se encaixa com o masculino. Então eu levantei para responder, porque tenho experiência em falar sobre sexo. Expliquei que a mulher tem clitóris e que existem outros tipos de sexo, como oral e anal, por exemplo. Também falei sobre como seria fazer sexo com uma travesti, por exemplo, que tem pênis num corpo feminino.
Então eu fui tomar uma água e, quando voltei, havia um senhor cristão reclamando, falando que Deus tinha feito o homem e a mulher com um propósito. Eu pedi para não falar sobre religião, ele falou que não era religião, era "Deus". Eu falei que Deus é religião, e teve gente que falou que não é (?).
Sempre fico surpresa com essa dificuldade cultural brasileira de se entender que "Deus" não é um assunto universalmente aceito. Tanto porque não é toda religião que adota o conceito de Deus, como porque essa conduta desconsidera a possibilidade da não-religião também. Ciência e religião são assuntos conceitualmente separados, pois a ciência exige o método científico, e a religião, não.
Então o namorado da professora que convidou a gente interveio. Claro que precisava ser um homem para conseguir algum respeito naquele momento... Ele falou que a escola deve ser laica e coisas do tipo.
O senhor, que mais tarde eu soube ser pastor, parou e finalmente a Paula conseguiu dar toda a parte dela.

Como a Paula falou sobre orientação sexual, uma mulher falou que os jovens estavam ficando "confusos" por se falar muito em homossexualidade. Claro, porque a heterossexualidade compulsória de sempre nunca deixou ninguém confuso, não é mesmo?

Depois eu entrei, acho que já na segunda hora. Comecei comentando o caso da menina que foi assediada por ter ficado com um garoto da sala:

"Em que mundo cabe uma ideia dessas? A menina fica com um e é obrigada a ficar com a turma toda? Imagine que eu ficasse com um cara, e ele me 'liberasse' para todos os amigos dele? Onde eles aprenderam uma coisa dessas? Isso é um grave problema de educação, porque não veio junto com o pênis".

A sala ficou no maior silêncio. *shifts unconfortably* Quando cheguei ao lance da virgindade feminina, o pastor se mandou.

Confesso que eu pego pesado mesmo, pois já me antecipo para comentários estúpidos. Por exemplo, quando falei sobre o estupro de oficiais nas forças armadas, já comentei sobre o fato de que o serviço militar é obrigatório para os homens porque homens assim decidiram. E quando mostrei o corpo feminino numa propaganda, já pontuei que se ela não aceitasse fazer o trabalho, seria tratada como anti-profissional e perderia vários trabalhos.

Então, no final, tivemos as atrocidades, as quais vou comentar separadamente. A mesma mulher que falou sobre o quanto os jovens estavam "confusos" por se falar em direitos LGBT, soltou a seguinte pérola: "Ah, mas a gente tem que pensar que estupro é errado de qualquer forma".
Eu não sei em que contar a história do estupro como violência de gênero prejudica o caso dos homens estuprados, mas sempre tem alguém pra dizer isso. Eu expliquei para ela que 97% das vítimas adultas de estupro são mulheres e que a maioria dos pedófilos são homens, mas não adiantou.
Aí veio outra: "Não concordo com essa 'linha' que vocês estão passando porque parece que homem nenhum presta e coloca como se feminismo fosse melhor que machismo"

Claro que ao ter ouvido uma barbaridade dessas, eu a interrompi para explicar os conceitos de machismo e feminismo. Então ela foi mega afrontosa:
"Ai, posso terminar de falar? Porque você não deixa ninguém dar a opinião" Eu: "É que você falou uma coisa errada, e eu preciso corrigir".
Sabe, eu só contei a história do estupro como algo culturalmente intrínseco, não dei minha opinião pessoal. Só abordei conceitos, alguns até muito básicos. Se ela ficou tão incomodada, creio que o problema esteja na própria história.

Eu expliquei então o que era machismo, sexismo, misoginia e feminismo. Expliquei que o movimento pelos direitos das mulheres tem um nome, o que não acontece com o movimentos dos direitos dos negros, por exemplo. Foi até legal porque rolaram uns comentários do tipo "duh, não é a mesma coisa" no resto da turma.
Daí outra professora falou: "Tem que tomar cuidado com essa moda agora, porque muita menina usa shortinho para sensualizar, depois os meninos passam a mão". 
Então eu respondi: "O errado é os meninos passarem a mão, não as meninas usarem shorts".
Professora: "Ah, mas ela usam pra chamar atenção". Eu: "Como você sabe?" Professora: "Pelo jeito delas". Eu: "Olha, eu sempre usei short, nunca foi pra homem ver". Nada adiantou, a mulher continuou insistindo que sabia das motivações das garotas por algum poder sobrenatural dela. Eu ia continuar provocando indefinidamente (fiz uma lacaniana de quatro anos), mas a Paula interrompeu e citou a questão da socialização feminina e o quanto isso influencia na construção de corpo das meninas.

Depois fiquei sabendo que a moça do "encaixa" lá no começo havia perguntado se nós somos lésbicas e se depilamos as axilas. Prioridades. Ela não parava com os comentários do tipo "mas toda mulher quer ter um corpo daquele, é bonito mesmo", "mas homem também e estuprado", "mulher também dá em cima de mulher", "mulher também gosta de homem bonito"... Como disse a Paula, ela é uma "defensora dos macho oprimido".

Minha experiência estudando questões de gênero me ensinou que cada grupo oprimido enfrenta certos conjuntos de frases de efeito desqualificador. "Mas também tem mulher que" e "mas também tem homem que" são as versões "não sou racista, mas" do mundo do feminismo. A pessoa puxa a exceção quando a gente está falando de regra; regras que vêm da estatística, uma ciência exata. Qual a intenção de quem faz esse tipo de comentário? É óbvio que é relativizar a violência contra a mulher e tratar como se não fosse algo que precisa de um atendimento específico. Nós fomos convidadas para dar a palestra porque meninas haviam sido agredidas por meninos, e docentes não souberam lidar com isso. E, a julgar por esses comentários, vão continuar não sabendo por muito tempo, porque realmente não querem aprender. É uma questão de caráter mesmo.

Pelo menos a coordenadora agradeceu nossa ida até lá, e o diretor deu um presentinho. Teve gente que apertou minha mão, teve gente que me abraçou e agradeceu pela palestra. Se pelo menos metade da turma repensar suas ações, já podemos dizer que concluímos a missão com sucesso.

sábado, 28 de novembro de 2015

Deficiência de vitamina D - A cultura do medo do sol

A deficiência de vitamina D é um problema grave dos ambientes urbanos nos últimos anos. Com tanta campanha pelo filtro solar para evitar câncer de pele e envelhecimento, as pessoas desenvolveram um medo muito forte do sol.

O fato é que a deficiência (ou insuficiência) de vitamina D pode acarretar graves problemas de saúde, pois ela é na verdade um hormônio. Além de fundamental para a absorção de cálcio, ela também evita diabetes, enxaqueca e depressão.
Tirada por mim no Parque do Piqueri

A melhor forma de regular os níveis de vitamina D no corpo é através da exposição ao sol diária por cerca de 15-20 minutos sem protetor solar. Minha dica é passar protetor solar no rosto, lábios, colo e mãos, pois são áreas mais delicadas, colocar um chapéu ou boné para proteger os cabelos e o couro cabeludo, e usar óculos escuros com proteção UV nas lentes. Os melhores horários são antes das 11h e após às 16h, mas não é preciso ter pavor caso não seja possível. É melhor, entretanto, evitar o sol muito quente, que pode causar queimaduras.

É importante destacar que a exposição deve acontecer num período de tempo curto; em no máximo 30 minutos já é preciso espalhar o protetor solar em todas as partes expostas. Infelizmente, não é possível acumular um monte de vitamina D num dia só; a exposição ao sol deve se tornar um hábito diário. E, mesmo em dias nublados, a absorção ainda acontece. Só não adianta através do vidro de janelas, pois os raios UVB são filtrados.

Também é bom lembrar que, quanto mais escura a pele, maior a dificuldade de absorção devido à barreira da melanina. Então pessoas de pele mais clara podem ficar menos tempo no sol para atingir a meta necessária.

Conseguir vitamina D através da alimentação é bastante difícil, pois ela aparece apenas em alimentos de origem animal e, ainda por cima, em baixas dosagens.

De qualquer forma, é recomendável fazer acompanhamento médico com exames frequentes, pois é difícil adivinhar em que situação cada pessoa está. Entretanto, pessoas que trabalham apenas em ambientes internos e/ou que trocam a noite pelo dia têm grandes chances de estar com deficiência e precisam ter mais atenção. Por mais divertido que pareça, um estilo de vida vampírico pode ser muito prejudicial para um ser humano.
   

sábado, 21 de novembro de 2015

Céu esta noite

Num certo lugar, não faz muito tempo, nasceu Suçuarana. Seus olhos, ora cinza, ora azuis; seus cabelos, avermelhados ou alaranjados, já queriam dizer o que seus lábios não diziam. Mas, se ela fosse ainda criança, perdoar-lhe-iam, talvez. Ela já é moça. Carrega um par de seios e mágoas. Mágoas do tio que a fez sangrar, mágoas da mãe que fingiu não saber.

Aos dezesseis, Suçuarana fugiu. Levava consigo um broto de lírio amarelo e seus vestidos. Chegando à cidade grande, como se estivesse sem alternativas, conheceu um rapaz e deitou-se com ele. Dessa vez, foi bom; sentindo-se umedecer e gemendo, como se ele a protegesse de tio Francisco, como se fosse sua mulher já. 

Resolveu morar com André, rapaz de loucuras afloradas; cheirava pó branquinho amarelado e bebia sucos ardidos que o deixavam violento e assustador. 

Um certo dia, tio Francisco bateu à porta. Queria levar Suçuarana de volta. André não deixaria. Cortou-lhe a garganta; ele sangrou, morreu. Sangrou como Suçuarana, tão jovem em seus braços, e, assim, homem e mulher fugiram.

Agora André era assassino além de drogado, e a polícia queria fazer maldades com ele e com sua amante, que jamais fora tão feliz até então.

Acontece que, na cidadezinha onde Suçuarana nasceu, havia um namoradinho de amores recém nascidos, Igor, que não queria amá-la e casou-se com Genoveva. Essa última morreu afogada, e Igor quis Suçuarana de novo e mandou Seu Francisco buscá-la. Como Seu Francisco não voltava, Igor foi procurá-la também, e veio para a cidade grande, onde conheceu a violência.

Enquanto isso, Suçuarana e André fugiam da polícia. Assassinavam testemunhas inocentes só por maldade; já estavam acostumados à dor e tratavam todos como tio Francisco e os policiais.   

Igor já era a personificação da revolta e só conseguia pensar em Suçuarana de volta. Perguntava pela ruiva quando avistou uma confusão e notou que eram policiais acinzentados e um casal cercado. Era André e sua amada. 

Um PM pegou sua ruiva como refém e fazia-lhe pequenos cortes para que André se rendesse. Suçuarana gritava: "Salve-se, Dé! Não se preocupe comigo!". Mas André não poderia viver sem Suçuarana e entregou-se à violência da lei. Suçuarana se livrou do homem de bem que a segurava, pegou a arma do sujeito e deu dois tiros em cada um dos polícias. 

Já era tarde. André agonizava os últimos minutos de sua existência. Suçuarana, muito desesperada, chorava e abraçava seu homem em momentos de despedida  trágica. 

Igor veio ajudá-la. Pegaram o corpo de André e o puseram no carro roubado da ruiva. Dirigiram até o quarto de Igor; levaram o cadáver e Suçuarana não sabia o que fazer. Igor já olhava para seu decote com malícia; quase lhe comia as carnes e enternecia de desejo. Começou a consolá-la deslizando as mãos entre suas pernas, escorregando os lábios por sua pele. 

Suçuarana, já ciente de suas intenções, se entregava e sentia os líquidos escorrendo. Por alguns momentos, ela não se lembrava mais de André, seu amor.   

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Oficina: Introdução ao BDSM

Darei uma oficina de Introdução ao BDSM em local e data a serem confirmados. Essa incrível oportunidade foi ideia da querida Jarid Arraes, diretora da casa, que inclusive já me entrevistou para a Fórum.

Quem acompanha meu canal no Youtube sabe que já tenho experiência como educadora sexual. Embora eu goste de falar sobre sexo em geral, BDSM é um assunto que me interessa bastante, tanto que o pesquisei muito ao longo da produção de minha dissertação de mestrado.

Pouca gente sabe como funciona uma pós do tipo stricto sensu. A verdade é que, para escrever um trabalho científico, é preciso ler muito sobre vários assuntos em muitas fontes diferentes. Meu mestrado abordou a questão da representação da sexualidade feminina na mídia. Como meu objeto de pesquisa foi a figura da vampira, o fetiche da dominação se tornou uma porção fundamental em meu trabalho.

O público-alvo dessa oficina são pessoas que tenham curiosidade e mente aberta para discutir sobre BDSM de forma leve e divertida. Não é necessário ter conhecimento prévio, pois pretendo começar dos conceitos mais básicos. E ainda vai rolar uma surpresa! ;)

Segue o programa:

Oficina - Introdução ao BDSM

15 de novembro de 2015

Parte 1 - 15h30 às 17h00

- Definição e vocabulário (switchers, top, bottom, sub, dom/domme, baunilha, sessão, treinamento)
- B&D, D&S, S&M, Gor, TPE, 24/7
- Mitos e discriminação (senso comum, machismo, dominadoras profissionais, visão do dominador como "mau")


 Intervalo - 17h00 às 17h30

Parte 2 - 17h30 às 19h00

- Consentimento e segurança

Negociações e limites
SSC, palavra de segurança, riscos emocionais e físicos, aftercare, primeiros socorros

- Práticas e instrumentos

Spanking (mãos, açoite, chicote, chibata, palmatória)
Bondage (suspensão, cordas, algemas, mordaças, vendas, coleiras, afastadores)
Estímulos sensoriais (pinwheel, penas, velas)
Estímulos psicológicos (humilhações, mindfuck, abandono emocional)
Estímulos físicos e psicológicos (plugs, enemas, esferas)

______________


Sobre Patty Kirsche:

Patty Kirsche é feminista, educadora sexual e escritora. Ela é também mestra em Filosofia pela USP com pesquisa sobre representações da sexualidade feminina em produtos culturais. Seu canal no Youtube, no qual publica vídeos sobre educação sexual, tem tido retorno de público bastante positivo. Intensa e bem-humorada, acredita na libertação através do conhecimento.



domingo, 13 de setembro de 2015

Corpos feministas - Projeto fotográfico

Não há como falar sobre gênero sem falar em corpo. Toda a socialização aplicada na construção de cada gênero demanda a construção dum corpo.

A percepção dos corpos está sempre sujeita a regras específicas de cada cultura. Na cultura ocidental, os corpos femininos e seus respectivos figurinos obedecem aos preceitos ocidentais de feminilidade. Por exemplo:


  • Depilação de pernas e axilas entre outras partes;
  • Cabelos longos;
  • Salto alto;
  • Lingerie de renda;  
  • Vestidos e saias.

Perguntas:
A percepção de corpo da mulher feminista difere da percepção do senso comum? A mulher feminista constrói seu corpo de forma diferente e/ou específica?

Com base nessas questões, estou dando início ao projeto fotográfico "Corpos Feministas". A ideia é fotografar mulheres feministas e seus corpos e figurinos de modo a descrevê-los e compará-los com os estereótipos do gênero feminino presentes na sociedade brasileira.

As voluntárias terão total liberdade para escolher quais partes do corpo desejam que sejam fotografadas e qual figurino usarão durante o ensaio.

Informações por email: pattykirsche@gmail.com

Tumblr: http://pattykirsche.tumblr.com

Obs: Projeto antropológico e artístico sem fins lucrativos.


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A cultura da virgindade feminina

Fala-se muito em "virgindade". Quando eu era criança, ouvi muitas vezes que o "correto" seria chegar "virgem" ao casamento. Não demorou muito para topar com as lendas acerca da "virgindade" feminina: "a virgindade é uma membrana na vagina", "o homem consegue perceber se a mulher é virgem ou não", "virgem não pode usar absorvente interno", etc.

Mas afinal, o que é ser "virgem"?

Oficialmente, virgem é qualquer pessoa que não teve relações sexuais. E o que são relações sexuais?

  • Se você fizer sexo oral em alguém, ou seja, se você chupar a genitália de outra pessoa, você estará fazendo sexo? Sim, estará.  
  • Se você receber sexo oral, ou seja, se alguém chupar sua genitália, você estará fazendo sexo? Sim, estará.
  • Se você fizer sexo anal ou vaginal, estará fazendo sexo? Sim, estará.
  • Se você praticar masturbação mútua com alguém, estará fazendo sexo? Sim, estará.


Então por que cargas d'água a gente ouve que a menina "perde" a virgindade com a ruptura do hímen? Quer dizer então que se, na primeira relação, um rapaz penetrar um ânus e não uma vagina, então ele continuará virgem? Um rapaz homossexual então seria virgem para sempre por jamais penetrar uma vagina? 

Acontece que a etimologia da palavra virgem já é relativa à mulher. Segundo texto do site Wikipedia:
 
A palavra virgem tem origem no latim, na forma substantiva virgo, genitivo virgin-is, que significa "mulher jovem" ou "menina". A palavra latina provavelmente surgiu por analogia com um naipe de lexema baseado em vireo, significando "ser verde, fresca ou florescente", principalmente com referência botânico - em particular, virga significando "tira de madeira"

O conceito de virgindade é bastante rígido para as mulheres na maioria das culturas. Entende-se por virgindade a presença do hímen na vagina. Ainda hoje, muitas garotas praticam sexo anal e oral para manter a "virgindade" da vagina, e existe até a possibilidade de restauração do hímen através de cirurgia.

Por causa dessa tão preciosa membrana, evita-se fazer exames em jovens que ainda não fizeram sexo vaginal. Um dos exemplos mais fortes dessa mentalidade é a questão do exame de papanicolau. Então se a mulher nunca fizer sexo vaginal, jamais precisará fazer o exame? Não, isso não é verdade.

Parece que o hímen é algum tipo de oferenda exclusiva para o pênis. Meninas não podem introduzir os dedos na vagina para conhecerem o próprio corpo nem usar sex toys, porque pode romper o hímen. Há medo até de utilizar coletores menstruais e absorventes internos. Ou seja, o hímen só pode ser rompido por um pênis na primeira relação sexual. Qualquer outra possibilidade de ruptura, ainda que seja um procedimento médico, deve ser evitada em nome dessa tradição.

Homens começaram a ficar obcecados com a "virgindade" feminina devido à busca pela certeza de que a mulher não estava grávida de outro homem. Como não era possível ter certeza da paternidade há cinco mil anos, os homens passaram a aprisionar as mulheres, e o hímen passou a ser visto como uma espécie de lacre do corpo feminino. Se nunca foi "usada", ainda está lá. Todo mundo já ouviu alguma história de horror sobre homens que devolveram suas esposas por não terem sangrado na lua de mel. Era como se essas mulheres fossem mercadorias adquiridas com defeito.

Todo esse histórico de obsessão pelo hímen é tão cruel e injusto que não consigo encontrar nada de positivo na cultura da virgindade. Sempre ouço falar sobre homens dispostos a pagar pequenas fortunas pelo hímen duma garota, e minha única conclusão é de que nós somos vistas como um carro, que se for zero vale mais.

Imagem encontrada no site Aum Magic
Nem é verdade que o homem percebe a ruptura do hímen porque é uma membrana super delicada. A maioria deles associa a primeira penetração da vagina duma moça com o sangramento, o que é um tremendo equívoco. Não é toda garota que sangra na primeira penetração, mesmo porque nem sempre o hímen é rompido. Muitas vezes só acontece um alargamento do orifício. Fora que podem ocorrer sangramentos por diversas razões durante a penetração, tanto da vagina como do ânus.

A verdade é que a cobrança da presença do hímen é só mais uma das muitas formas de reprimir a sexualidade feminina, e precisamos nos posicionar contra todas essas tradições estúpidas. Cada mulher precisa ser dona de seu próprio corpo, e isso inclui o hímen. Se ela desejar romper seu hímen durante a masturbação, que possa fazer sua escolha livre de julgamentos. Pessoalmente, acho que a vagina deve ser "treinada" para o sexo vaginal para evitar rupturas brutais e sangramentos. Achar normal que uma menina sinta dor na primeira relação sexual é só mais uma evidência do quanto a maioria das sociedades do mundo são doentes.  

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Atendimento via Skype

Desde que dei início ao projeto dos vídeos sobre educação sexual no canal do Youtube, tenho recebido cada vez mais mensagens de pessoas com dúvidas ou precisando de ajuda com urgência. Algumas dessas mensagens são super longas, e percebo que essas pessoas precisam de muito mais que um email como resposta.

Por isso tive a ideia de começar um projeto de atendimento via Skype. Não será uma terapia porque é complicado acompanhar pessoas, criar o vínculo terapêutico e a confiança que devem existir num processo de suporte emocional por Skype. Sendo assim, o atendimento via Skype terá como finalidade a transmissão de informação, incluindo informações de nível terapêutico, mas não com a capacidade de transformação que uma terapia teria.

Os atendimentos têm como objetivo tirar dúvidas e prestar orientação sobre questões sexuais em geral, incluindo questões de gênero, orientação sexual, fetiches, métodos contraceptivos e aconselhamento emocional sobre relacionamentos, abrangendo pessoas em relações abusivas.


Os preços variam de R$120,00 a R$240,00 dependendo do horário e duração da sessão. Mais detalhes por email.

Contato: pattykirsche@gmail.com

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Pálida Virgem

Será que alguém entenderá
tão mórbida figura?

Aqui estão todos casais
quando uma virgem sangra.

É a realidade,
a incerteza é o orgasmo
que ele com certeza alcançará,
mas a virgem dos românticos,
essa raramente gozará.


domingo, 5 de julho de 2015

Menstruação e Paganismo

Sei que já estou devendo há algum tempo um texto sobre os significados da menstruação no paganismo. Minha demora se deve, entretanto, a uma grande dificuldade de encontrar informação com referências sobre o assunto. Mas decidi postar um condensado dos resultados de minhas pesquisas até agora.

A menstruação tem vários significados dependendo de cada cultura. Aqui, na cultura ocidental, a rejeição ao sangue menstrual é notória e institucionalizada. Entretanto, em culturas pagãs, como a celta, por exemplo, a menstruação era muito valorizada.

Como afirma Ana Elizabeth Cavalcanti da Costa do IPPB – Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas
sobre as sociedades celtas:

"As mulheres eram vistas como aspectos vivos da criação, porque vivenciavam todos os meses com o ciclo menstrual, o processo da vida, morte e renascimento, além do poder de gerar vidas. Vou dar um exemplo: Dergflaith era um dos nomes célticos dado à menstruação, e significava “soberania vermelha”. O vermelho representava soberania, poder, vida. Pense então nos mantos vermelhos dos reis. A menstruação tinha conotação de sagrado, porque acreditavam que a mulher se tornava ancorada e enraizada nesse período. Nos períodos de menstruação, as mulheres se isolavam numa cabana ou se dirigiam à floresta, compartilhavam sobre os problemas da tribo".

Na Wicca, o sangue menstrual pode ser utilizado como oferenda para a Deusa num ritual em que as mulheres agradecem pela capacidade de gerar a vida. Eu acho bastante interessante a ideia, pois a menstruação é um sinal de que a fêmea humana está em condições de gestar.

O sangue menstrual tem uma história de ser utilizado como instrumento mágico, e esse processo era quase sempre ligado ao ritual de se jogar o sangue na terra. Existia a ideia de que mulheres menstruadas absorviam energias, então elas poderiam auxiliar na cura de pessoas e animais doentes carregando no sangue a energia da doença e a neutralizando ao despojá-la na terra.

Outra crença interessante era a de que a energia da mulher iria para as plantas regadas com sua menstruação. Regar as plantas utilizadas em rituais e feitiços com o sangue menstrual da bruxa seria uma forma de energizar as plantas com a essência da mulher que as usaria depois, o que aumentaria o poder.

Pessoalmente, eu adoro ficar menstruada. Sinto uma forte conexão com minha feminilidade nesse período, e ainda aproveito a oportunidade para praticar rituais altamente subversivos, como a coleta do sangue para usar como fertilizante.

Não é para me gabar, mas desde que comecei a regar minhas plantas com meu sangue menstrual, elas ficaram bem mais viçosas. O sangue é rico em proteínas. Existem vários pratos que utilizam sangue de animais no preparo; galinha ao molho pardo, por exemplo. O sangue contém três macronutrientes importantes para as plantas: nitrogênio, fósforo e potássio.

Existem várias correntes de pensamento sobre os significados da menstruação para as mulheres. Na visão de algumas crenças pagãs, a fase da lua na menstruação afetaria as influências das energias da lua nas mulheres. Em linhas gerais, a mulher de lua vermelha é a que tem a menstruação na lua cheia, enquanto a mulher de lua branca é a que tem a ovulação na lua cheia. Como os ciclos da lua demoram cerca de 28 dias, que é mais ou menos a duração dos ciclos menstruais, acaba acontecendo uma equivalência de ciclo na lua nova também.

Uma das coisas que mais me incomoda na percepção que as mulheres têm de si mesmas é o period hating. Muitas mulheres têm até vergonha de fazer sexo no período menstrual devido à visão equivocada da menstruação como sujeira.

Também li sobre um xamã que considera as mulheres como flores, já que o fruto vem de nós. É interessante porque o xamanismo é um paganismo de povos nativos das Américas, mas as ideias do sangue menstrual como uma oferenda para a terra, fruto dum sacrifício sem morte, também aparecem. Ou seja, semioses nas quais a menstruação assume significados ritualísticos parecem ser comuns a várias religiões pagãs, tanto americanas quanto europeias.  

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Confissões de uma ex-prostituta paulistana

Estamos sob ameaça de redução da maioridade penal no Brasil de 18 para 16 anos. O pessoal fica falando em crimes hediondos cometidos por psicopatas menores para justificar a medida, mas esquece que a maioridade penal é a única coisa que estabelece algum limite legal para a distribuição de drogas legais (álcool, tabaco, etc) e pornografia. Se, nos anúncios do Amarelinho, as casas de prostituição ainda colocam 18 anos como idade mínima para as garotas, é por causa dessa questão. Não que 18 anos seja o suficiente para alguém tomar a decisão de se prostituir, mas pelo menos existe uma limitação.

Por isso, considero que esse é um excelente momento para publicar o relato que recebi da M., que está agora com 30 anos e foi prostituta entre os 18 e 19. 

Trigger warning: violência sexual e de gênero.

Homens que saem com prostitutas são, em sua maioria, a escória.

Eu tinha acabado de completar 18 anos quando comecei a me prostituir. Era uma menina pobre passando pela dificuldade de conseguir o primeiro emprego. Ninguém me dava uma chance porque eu não tinha experiência, mas eu precisava pagar as mensalidades do cursinho.

Homens sempre me assediaram na rua, então achei ingenuamente que topariam pagar para fazer sexo comigo. Na prática, as coisas são mais complicadas. Não porque eles não queiram pagar, mas porque não querem pagar o valor que a gente considera adequado.

Quando a gente se coloca como prostituta, homens acham que têm passe livre para desrespeitar. Colocam a mão na perna da gente sem nenhuma cerimônia, ligam de madrugada para falar besteira (você ficou com medo de me dar seu cuzinho porque meu pau é muito grande), mas, acima de tudo, fazem o máximo para conseguir sexo sem precisar pagar.

Tem os "românticos", que sentem tesão em levar pra cama uma prostituta que decidiu não cobrar deles. Sentem-se muito especiais por isso. Mas também tem os mesquinhos mesmo, que decidem quanto vale uma trepada com a gente pelo valor simbólico da nossa aparência. Loira? Vale mais. Negra? Vale menos. Magra? Vale mais. Gorda? Vale menos. E por aí vai para todos os padrões de beleza que você imaginar.

Apesar do pouco tempo na "vida", consegui colecionar um belo lote de humilhações. Nunca vou me esquecer dum infeliz que me ligou várias vezes num domingo de manhã. Eu disse a ele que não trabalhava aos domingos porque pretendia ficar com minha família, mas ele não parava de insistir que eu o atendesse naquele dia.

O nome dele era Franco, lembro como se fosse hoje. Era um japonês e morava na Pompeia. Fazia perguntas do tipo se meus seios eram firmes, e afirmava que eu "já tinha 18 anos", logo poderia sair no domingo se quisesse.

Por precisar de dinheiro, após muita insistência dele, acabei aceitando encontrá-lo no centro. Lá ele me ligou dizendo que estava estacionado em frente a um cinema pornô. Quando eu cheguei e me aproximei do carro, ele sequer me cumprimentou. Ficou só me olhando de cima a baixo um tempo, até que finalmente falou: "Creio que não é o que eu esperava". E o pior é que o desgraçado simplesmente ia embora, como se não tivesse me tirado de casa num dia de folga. Eu o mandei esperar e disse que ia cobrar uma quantia simbólica por ele ter me feito ir até ali; o dinheiro do táxi. Ele falou: "sem problemas", mas pagou com muita irritação. Deu o dinheiro na minha mão e falou algo como: "você consegue". Não sei bem, porque já havia virado as costas naquele momento.

Algum tempo depois disso, apareceu um sujeito ainda mais asqueroso. Ele me disse que se chamava Marcelo, mas nem sei se isso é verdade. Só tenho certeza de que ele já tinha tudo planejado quando me ligou. Perguntou se eu aceitava cheque, disse que eu poderia confiar na idoneidade dele. Falou que havia feito o curso que eu desejava fazer no Mackenzie para conquistar minha confiança. Foi tão convincente que acabei aceitando encontrá-lo no Shopping Tatuapé, que é longe de minha casa, mas provavelmente ficava perto do trabalho dele.

Apesar de ter marcado um horário, ele me ligou quando eu já estava no shopping para ter certeza de que não perderia a viagem. Ele estacionou seu Escort dourado na Tuiuti pra não gastar com estacionamento e me levou para um motel
Foto meramente ilustrativa
que, mais tarde eu descobriria, ficava no Parque Novo Mundo.

No quarto, ele queria fazer sexo anal comigo logo de cara, mas não queria usar camisinha. Disse que não tinha, então eu entreguei a minha. Ele abriu com os dentes e, depois que havia colocado, ficou se queixando de que era muito apertada. Logo em seguida, tirou e falou: "Não vamos transar, não, vamos só 'brincar'".

Ficou encostando o pênis na entrada de minha vagina e dizendo que se quisesse forçar, me forçaria. Eu senti muito medo, mas não sabia o que fazer além de torcer para aquilo acabar o mais depressa possível.

No final, ele gozou na minha barriga. E eu sei que poderia ter sido pior, porque ele queria gozar na minha cara. Imagina o esperma desse nojento no meu rosto? Ficava me chamando de "paixão", mas tudo que ele queria era se livrar de mim o mais depressa possível após ter gozado.

Ele parou o carro na beira do viaduto Aricanduva e me deu um cheque de terceiro no valor de R$240,00, que obviamente não tinha fundos. Nem para me levar até o metrô; claro que ele sabia que não passava ônibus para minha casa ali. Que tipo de verme faz isso com uma menina de 18 anos?

Minha sorte foi que cruzei um senhor e pedi informação, e ele estava indo para o mesmo lado. Ele foi conversando comigo e queria saber como eu havia me metido naquela encrenca de precisar andar tudo aquilo de salto. Eu fiquei com vergonha e falei que meu namorado havia me deixado ali, mas não refrescava muito porque que merda de namorado faria uma coisa dessas?

A prostituta é a mulher que homens acreditam ter o direito legítimo de agredir, inclusive sexualmente. Sentem que nós "merecemos" tudo que eles fazem, afinal, quem mandou "escolher" esse trabalho, não é mesmo?

Com tudo que testemunhei, só posso dizer que sinto muito por minhas colegas que não conseguiram largar a profissão. Cheguei a conhecer casas em que eu ficaria com R$30,00 por programa, e a casa com R$40,00. E ainda queriam que eu servisse de propina pra fiscal; simplesmente mandaram o cara escolher uma menina. Teve uma época em que trabalhei num bar na Vila Olímpia. Lá era melhor porque o programa era livre; a casa ganhava no bar. Mas o melhor mesmo foi quando finalmente passei no vestibular e pude largar. Sem mais.

domingo, 21 de junho de 2015

A história de "Doce Ardor"

Em 2010, eu escrevi um livro de ficção (em tese seria o primeiro da série Pimenta & Cereja). É romance pela extensão, pois tem cerca de 90 mil palavras, mas o gênero mais próximo é fantasia urbana. A história é sobre a agente secreta Blutig Pfeffer, que acorda dum coma com a memória comprometida. Ela é uma jovem mulher independente e durona, mas que carrega uma forte angústia. O conflito principal da história é a busca de Pfeffer pela verdade escondida em seu passado; uma jornada de autoconhecimento.

Teve gente que reclamou do nome Blutig Pfeffer, que não é nada além de "bloody pepper" em alemão. Estrangeirismo em inglês a galera aceita bem, mas em outras línguas sempre rola um estresse. Fora que existem razões para que ela tenha esse nome, não é um reles capricho da autora. Mas enfim, desabafo feito, vamos em frente.

A história mistura elementos fantásticos com ação e romance. Os elementos eróticos ficam por conta dos paqueras de Pfeffer: o misterioso vampiro Hades e seu chefe Ricardo. Nenhum deles é perfeito, mas Pfeffer também não é, como as pessoas do mundo não são.

No início de 2011, quando a primeira versão ficou pronta, eu optei pelo serviço de autopublicação do Clube de Autores, site pioneiro em colocar livros virtuais a venda para serem impressos sob demanda no Brasil.

Alex fazendo divulgação de "Doce Ardor"
A ideia foi muito legal em teoria, mas o livro físico ficava muito caro lá. Fora que a qualidade de impressão não era das melhores. Com isso, ficou difícil vender os livros, e a publicação lá funcionou melhor para eu mesma comprar unidades, revisar e ceder para parceria e resenhas.

O legal é que mesmo aquela edição inicial cheia de erros agradou muita gente. A maioria das pessoas que leram, mulheres e homens de várias faixas etárias, gostaram. Foram publicadas várias resenhas positivas, as quais compartilho nos links a seguir:

Vicky Doretto
Joe Silva
Carla Ferreira
Débora e Alessandra
Mariana Dal Chico
Mayara Braga
Renato Klisman
Bih Lima

Apesar disso, não consegui publicar por nenhuma editora. Até recebi alguns contatos, mas nenhum resultou em publicação, infelizmente. O mercado editorial brasileiro é profundamente assustado. O medo de arriscar prejuízos é muito grande, e a maioria das editoras acaba apostando em títulos já bem sucedidos no exterior, principalmente nos EUA. A principal atividade das editoras brasileiras é comprar direitos de publicação de livros gringos e só se preocupar com a tradução.

No Brasil, ver TV é a atividade preferida - fonte Prolivro 
Existem várias razões que levam a esse fenômeno grotesco. Para explicar, é preciso falar do mercado editorial dos EUA. Lá são publicados livros sobre tudo, o que leva a saturação. O público tem maior hábito de leitura (tem caído, chegando a cinco livros por ano em média). No Brasil, o número médio de livros lidos por ano ficou em torno de quatro em pesquisa feita em 2011. Mas a diferença mais gritante está nos números de quem não leu nenhum livro no ano anterior. Nos EUA esse número ficou em torno de 23% em 2014, mas no Brasil chegou a 70%.

Infelizmente, a cultura brasileira é predominantemente audiovisual; a maioria dos entrevistados na última pesquisa Prolivro apontou ver TV como a atividade mais prazerosa.


Mas existem outras questões, como o preço do livro, por exemplo. Os custos de produção são elevados no Brasil, em parte devido à forma como os impostos são aplicados. Além disso, nos EUA existe um processo de barateamento dos livros após cerca de um ano do lançamento, com a impressão na modalidade brochura, de papel mais barato.


A última remessa
O que nos leva a minha situação atual. Uma colega sugeriu que eu publicasse "Doce Ardor" na loja da Amazon, e devo dizer que a experiência tem sido boa. Mesmo sendo impresso nos EUA, o livro acaba saindo mais barato, e a qualidade de impressão é muito melhor. E ainda tem versão para Kindle disponível, por apenas R$6,43.

Há alguns dias chegou o último lote que comprei. Minha intenção é disponibilizar para algumas das pessoas lindas que apoiam meu ativismo.
Quem adquirir vai receber uma unidade de Doce Ardor com dedicatória personalizada. São poucas unidades, que estou vendendo pelo valor promocional R$47,00 com frete incluso.

Não é fácil dedicar tempo para manter um blog e um vlog só por ideologia, mas as mensagens das (muitas) pessoas que já ajudei me ajudam a continuar. Só que só as mensagens não pagam as contas... Por isso fiz esta postagem. Eu poderia estar roubando, mas não. Estou aqui tentando vender meus livros no blog. Quem tiver interesse pode entrar em contato pelo e-mail pattykirsche@gmail.com.

domingo, 24 de maio de 2015

Um abusivo sanguessuga

Há alguns dias, recebi uma mensagem da B. contando sobre a triste experiência que teve com um homem abusivo. Ele dizia ser bissexual com preferência maior por homens, mas eu acabei concluindo que se tratava dum gay enrustido. 

Uma das principais razões pelas quais mulheres entram em contato comigo é para tirar dúvidas sobre homens abusivos. Eu sempre peço que elas escrevam suas histórias para auxiliar no processo de cura e ajudar outras mulheres. Inclusive já publiquei outro guest post nesse estilo este mês.    

Compartilho agora o guest post da B.

A primeira vez que eu o vi foi em cena. “Que ator talentoso!", pensei. Acabei passando no mesmo ano na mesma faculdade de artes cênicas em que ele estudava, e, no início das aulas no ano seguinte, ele veio me dizer o quanto eu era linda. Depois de alguns dias, nos encontramos numa festa de calouros e fiquei com ele; apenas um beijo. No dia seguinte, ele veio falar que adorou nossa química e esperava repetir aquilo de novo.

Perguntei se ele era gay, pois a maioria dos meninos na faculdade eram. Ele respondeu que não, mas depois disse que já tinha ficado com meninos, dizendo que era “normal, né”. E, sinceramente, para mim realmente poderia ser normal, pois eu mesma sou bissexual e já namorei mulheres, inclusive. Ficamos nesse flerte e sorrisos por alguns meses e, depois nos esquecemos entre todos aqueles alunos, até o início do segundo semestre, quando nos encontramos em uma peça de teatro e começamos a conversar mais profundamente. Apesar da diferença de 8 anos de idade entre nós (ele 24 e eu 32), ele era muito inteligente, e sua prosódia era encantadora!

Começamos a ficar; foi gostoso, apesar de nunca esquentarmos muito. Uma vez, ele me disse que minha boca tinha o cheiro da boca da mãe dele, e isso afastava um pouco a vontade de me beijar. Conforme fomos nos conhecendo, eu aprendi mais sobre a complexidade dele. A primeira era em relação ao sexo, pois, aos 24 anos, ele ainda não tinha transado com uma mulher; apenas com homens.

Transamos a primeira vez depois de dois meses de namoro. O temperamento controlador de início foi ficando mais agressivo conforme o tempo passava. Ele começou a pedir para dirigir meu carro, e fui deixando. Qualquer “cuidado!” que eu gritava era motivo de um escândalo e murros no painel.

Primeiro foi na direção; depois, quando começamos a tentar transar, foi no sexo. Ele se irritava quando eu fazia alguma "cara". Foi difícil acertar o que fazer, até o momento em que eu tinha que ficar quieta e dura, sem expressão nenhuma, para ele conseguir transar comigo. Ele percebeu que sentia mais tesão quando me beliscava ou me batia, e, como eu queria que ele me desejasse, acabei permitindo.

Só que, de alguma forma, aquela agressão no sexo foi passando a existir no nosso cotidiano, nas coisas mais simples. Passamos por essa fase de tentar transar, pois ele foi perdendo o interesse. Segundo ele, eu queria gozar mais de uma vez e insistia em fazer "cara de vagabunda" (juro que não fazia mais nenhuma expressão, ficava quase impassível).

Vocês não imaginam a vontade que eu sentia de transar com ele. Eu o abraçava forte algumas vezes, e isso o deixava irritado. Muitas vezes, ele me mandou deitar na outra cama, pois eu não estava "merecendo" estar ali já que não sabia me controlar. Já não transávamos mais, e ele nem me beijava; eu me contentava com o abraço na hora de dormir.

Nessa época, ele passou a ficar arisco com o celular, escondendo muito e constantemente irritado e agressivo comigo. No penúltimo dia do ano, íamos passar a virada juntos, e ele estava tão compenetrado no celular, enquanto conversávamos inclusive, que acabei esperando ele dormir e mexi no celular dele.

O que eu encontrei foi muito dolorido: vários aplicativos de encontros gays e muitas conversas no whatsapp com homens, inclusive marcando de transar, ou revelando como foi a transa. Não aguentei e o acordei, mas nesse dia eu senti medo de verdade. Ele já tinha feito várias coisas; quebrado vários objetos, inclusive equipamentos eletrônicos bem caros meus, mas, nesse dia, achei que ele fosse me matar.

Eram quatro da manhã, e fui levá-lo para sua casa. Ele insistiu que iria dirigindo; a esta altura eu não tinha mais nenhum poder sobre meu carro. Ficamos uma semana sem conversar, mas eu não conseguia ficar longe dele e mandei um e-mail pedindo desculpas por invadir sua privacidade e prometendo que isso jamais aconteceria novamente. Acabamos voltando, e ele voltou a ser mais carinhoso e sentir mais tesão comigo.

Ele era bem pão duro apesar do bom salário, mas, logo depois que voltamos, ele saiu do emprego. Quem passou a sustentá-lo fui eu, e isso foi se tornando natural para ele, que foi ficando bem folgado. Ele ainda ficava bravo quando eu não pagava algo ou falava que precisávamos cortar despesas, tipo comer fora.

Era estranho, pois apesar de estarmos mais próximos, eu tinha virado uma uva passa. Muitos amigos me
diziam que eu tinha perdido o brilho, e eu sentia isso também. Eu o servia o tempo todo; cozinhava, arrumava a casa dele, lavava louça, enquanto ele ficava deitado jogando vídeo-game. Eu não sei por que eu estava feliz em cuidar dele.

Vocês podem imaginar como eu fiquei quando ele voltou a ficar com vontade de sair com homens de novo, né? Pois ele ficou... Tenho impressão de que, junto com o tesão de sair com homens, veio mais agressividade. E passei por maus bocados novamente; cheguei a filmar uma destas explosões de ódio dele, mas apaguei com medo de que ele achasse. Ele sempre olhava meu celular, então em nunca falava com ninguém sobre ele. Mesmo porque, em muitos momentos, ele era um homem maravilhoso, querido, amigo, engraçado... E era assim que todos o viam; eu não me sentia no direito de deixar as pessoas saberem como ele era na intimidade.

Pela primeira vez, pedi um tempo. Percebi que eu tinha começado a ficar louca como ele, pois havia perdido o centro; comecei a gritar e responder. Ele não chegou a bater forte ou dar tapas, mas ele me segurava e empurrava. Eu vivia com os braços roxos e cara de doida. Quando eu estava sozinha, comecei a brigar no transito, a ser mais grossa com as pessoas. Uma amiga disse que eu estava perdendo a doçura e a meiguice que sempre tivera.

Mas, novamente, não aguentei ficar longe dele e não segurei minha decisão de dar um tempo. Fui atrás dele de novo, mas ele não quer, por enquanto. Ele me culpa por não ter tido paciência; diz que naquele momento estava mais próximo de mim e logo voltaria a sentir vontade de transar comigo.

Pior que estou realmente me sentindo culpada por esta tristeza toda, pois talvez ele nunca mude, mas imagino que talvez ele fosse mudar e eu tenha me adiantado. Não sei o que pensar na verdade; só sei que estou há um mês sem ele e planejando uma viajem para melhorar a cabeça. Engordei muito neste último mês e só choro; até atrasei a entrega de trabalhos.

Estou muito triste, com uma grande sensação de incapacidade. Fora que a autoestima desapareceu. Acho que vou ficar dois meses num spa e vender o carro (detalhe, ele me deixou 2 mil reais em multas).

Eu quis compartilhar minha história pois sei que pode ajudar alguém. Não fiquem com homens que não sabem quem são. Participar da auto descoberta de alguém pode ser muito dolorido. 

Minha resposta:

Puxa, que história triste, B. Não volte com ele de jeito nenhum. Esse homem não gosta de você. 

Quanto ao seu questionamento, eu digo que ele não vai mudar. Por várias razões.

a) Ele é gay, o que significa que, via de regra, ele não sente atração sexual por mulheres. 

Acredito que ele mesmo se rejeite. Na nossa cultura, a construção social da masculinidade depende muito da heterossexualidade. Então, o homem que não é hétero se sente menos homem. Infelizmente, é muito comum que gays enrustidos se relacionem com mulheres para se sentirem mais "homens";

b) Ele é misógino, portanto sente prazer em maltratar e explorar mulheres;

c) Ele é abusivo, logo agressivo com parceiras;



d) Ele é uma pessoa visivelmente sem empatia, talvez até um psicopata. É muito comum que psicopatas sejam carismáticos.

O sujeito ter coragem de dirigir seu carro, pegar multa e deixar para você pagar... Quer dizer, ele faz o que quer e não está nem aí. Você poderia até processá-lo judicialmente para que ele pagasse.
A verdade é que você era um objeto para ele, que ele sugou de todas as formas possíveis. Usou sua presença como namorada para se fantasiar de bi, usou seus bens materiais, explorou sua força de trabalho e ainda satisfez suas pulsões sádicas cometendo violência psicológica contra você. 

Agora é momento de cuidar de si mesma. Sua autoestima está baixa agora, mas vai melhorar. Você só voltou com ele tantas vezes apesar de tudo porque você não se considera merecedora de ser feliz de verdade. Foi se esforçando para agradar um homem que nunca estava satisfeito com nada a troco de migalhas, praticamente implorando para que um homem que não sente atração por você use seu corpo. Afinal, você sentia prazer se esforçando para ficar parada e inexpressiva durante a relação sexual?   

Ele era profundamente cruel com você. E em algum momento você não vai entender como aguentou tanto desaforo. 

Boa sorte. 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Quando uma mulher vira moeda de troca

Há alguns anos, eu tive um relacionamento do qual me arrependo bastante. Durou pouco; o tempo de eu perceber que as coisas não funcionariam de jeito nenhum. A tentativa de manter a amizade foi um desastre, inclusive já é desse período o episódio sombrio que vou narrar agora.

Eu conheci M. num grupo de fãs duma banda de rock na internet. Numa tentativa de transformar a amizade virtual em real, o grupo teve alguns encontros e, numa ocasião em que só nós dois comparecemos, o rolo começou.

No começo, ele era gentil e interessado, mas logo começou a se mostrar possessivo, irritantemente ciumento e sutilmente agressivo. O quão ciumento? Uma vez ele cismou que eu havia olhado para um cara e fez uma longa cena. Eu nem havia visto o sujeito, mas escutei por vários minutos afirmações do tipo: "Gostou dele? Vai atrás".

Nem preciso dizer que isso foi desgastando a relação. Como ele morava em outra cidade, nós só nos encontrávamos no final de semana. Para mim estava tudo bem, mas ele ficava dizendo que não tinha como "dar certo" se ele não podia passar na minha casa depois do serviço. Isso foi evoluindo para o momento em que ele começou a me tratar mal e cortar o retorno afetivo. Deixou de falar em "nós" e só falava nele mesmo.

Quando ele começou a falar que não queria nada "sério", apesar de suas violentas cenas de ciúme, percebi que era o momento de sair da relação. A ruptura foi pacífica, mas dolorosa. Pouco tempo depois, entretanto, eu viria a perceber que ele não merecia meu sofrimento.

Alguns dias após o término da relação, seria o aniversário duma garota do grupo, a S.. Ela desejava comemorar seus 17 anos (com RG falso) num show que aconteceria numa casa noturna. E eu fiz a besteira de ir. Besteira porque eu não precisava passar pelo que passei lá. Sabe quando uma pessoa se transforma? Então. Meu ex virou um monstro após o término da relação. Eu não conseguia acreditar que eu havia dormido com aquilo.

O pior foi que ele teve uma epifania de repente. Cismou que quem ele realmente queria era a S., mesmo ela sendo menor de idade quando ele estava com 26 anos na cara. E, claro, a culpa por ele não ter ficado com ela era minha. Então ele começou a me tratar muito mal; foi grosso diversas vezes. Ficou parecendo que eu era uma louca dando em cima dum cara que nunca me quis. Sendo que eu nem estava flertando com ele, só sendo amigável.

O ponto alto da noite foi quando S. e eu subimos numa espécie de palco para dançar. As coisas estavam divertidas, mas, enquanto dançávamos, vi um sujeito abordando M., que estava na pista. O cara ficou apontando para cima do palco, e achei que ele estava dizendo que era proibido dançar ali, ou algo assim. Mas logo M. chamou S. para conversar. Ela se abaixou para escutar algo em seu ouvido, e eu pude ver que M. estava passando a mão no rosto dela em ritmo de flerte. Logo ele já estava pegando no tornozelo dela.

Eu achei a cena no mínimo de péssimo gosto, mas perguntei a ela o que acontecia. Ela disse que o dono do lugar havia oferecido champanhe para nós em troca de ficar com ela, mas que M. havia negociado seis lugares no camarote VIP (onde haveria Heineken de graça) para a gente.

Ele negociou uma adolescente de 17 anos com o dono da boate. Sério.

Quando eu questionei, ele foi mega desagradável. Perguntou se eu queria que ele colocasse uma coleira na S. Senti vontade de ir embora na mesma hora, mas eu não havia saído só com ele. Já era madrugada, e meu carro estava no prédio em que outra moça do grupo morava, mas ela só ia embora quando o metrô abre, às 4h40. Eu me arrependi por não ter simplesmente encontrado o pessoal lá, mas eu não esperava que ia topar com aquilo.

E ele continuou sendo um escroto pelo resto da noite. Na saída, ele começou a se gabar por ter negociado camarote VIP com o proprietário, e eu falei na cara dele que ele havia bancado o cafetão. Claro que ele não gostou. Mas, àquela altura, eu não poderia me importar menos com o que ele achava.

Infelizmente, ainda levei alguns meses para ter coragem de excluir completamente aquele traste de minha vida, porque tínhamos muitos amigos e amigas em comum. E o pior é que a maioria do grupo ficou do lado dele, o que tornou o período ainda mais difícil. Eu fico impressionada que tanta gente não tenha visto nada demais nas ações dele.

Mas, depois que consegui, foi um grande alívio. Claro que a conduta toda dele foi absurdamente reprovável. Contudo, tê-lo visto negociando a sexualidade duma garota menor de idade por quem ele supostamente estava interessado em troca de bebida ficou na minha memória como o momento mais baixo dele. Afinal, se o sujeito não respeita uma, não respeita nenhuma. Ele já estava desrespeitando a mim, com quem ele havia tido um compromisso afetivo nos meses anteriores, mas vê-lo tratando outra mulher como objeto serviu para ilustrar bem diante de meus olhos que tipo de gente ele era. E com esse tipo de gente, eu não quero contato.

O mais interessante é que, alguns dias depois, ele teve coragem de me dizer que pela forma como agi naquela balada, ele tinha tido certeza de que nós jamais daríamos certo. Haha, é recíproco, darling.

A lição que fica é sobre violência simbólica. Muita gente acha que violência é só porrada, mas uma agressão pode aparecer na rispidez da voz ou num olhar de desdém. Uma agressão psicológica pode ser tanto ou até mais grave que uma agressão física, por isso é sempre importante analisar a situação fora duma perspectiva de senso comum.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Boss Ass Witch

What the fuck, I ain't smokin' hot? Bust me down?
You the same white clown suckin' porn in your mama house?
Now you all smug with your new pussy

I said, rule #1 to be a boss-ass witch
never let a white dick try to play you
if he play you then rule #2
write about the shit he done in your blog
Also write a novel tellin' all the truth
'bout how he worked so hard to lose you

And tell him that your friends know about his Lolita taste
And that's rule #3: I'm gonna go on with my life
Follow my dreams, things that I wish
But that's just 'cause I am a boss ass witch

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Vivendo um relacionamento abusivo

Desde que comecei o blog e o vlog, a maioria das mensagens que recebo de mulheres se referem a relações abusivas. Muitas chegam a mim procurando informações sobre misoginia, geralmente quando percebem que estão sendo vítimas de violência de gênero. A L., que escreveu este guest post, foi uma delas.

Agora L. já conseguiu sair da relação e está se recuperando, mas ela passou por um verdadeiro calvário. Pensando no quanto compartilhar essa experiência poderia ajudar outras mulheres (e a própria L. no processo de cura), pedi a ela um guest post, o qual publico aqui:

Permaneci por dois anos e meio em um relacionamento abusivo. Sofria violência física e tortura psicológica.
Morávamos juntos, e eu era totalmente dependente dele. Todo dia eu pensava em suicídio.
Quando tomei coragem e terminei, achei que as coisas iriam melhorar. Caí em depressão profunda, e a ideia de suicídio permaneceu. Ele veio atrás durante um tempo, com promessas de melhora, mas permaneci forte.

Não tive apoio moral da família. Inclusive, depois de ter voltado para casa um lixo (e 30 kg mais gorda), minha mãe perguntou o que EU tinha feito de errado para o relacionamento não ter dado certo.
Fui atrás dos amigos e pedi perdão por ter me afastado, por ter 'escolhido' ficar com o parceiro e não com eles (mesmo que forçadamente). Eu me agarrei aos amigos, que me distraiam, me tiravam de casa mesmo quando a vontade era de morrer. Foquei nos meus estudos e, hoje, depois de um ano e meio, comecei terapia.

Estou me sentindo muito melhor e seguindo a minha vida. Aos poucos estou aprendendo a me amar.
Meu único arrependimento foi não ter denunciado aquele monstro, mas não consegui por medo, puro medo. Cruzei com ele algumas vezes por aí, tremi por dentro, e o medo tomou conta. Não nos olhamos, agimos como dois desconhecidos. Espero não o ver nunca mais.

Tudo o que acontecia de ruim no relacionamento, ele dizia que a culpa era minha, e eu absorvia essa culpa. Ele era ciumento e, quando bebia, se tornava agressivo; muitas vezes até me batia. Ele dizia que eu não prestava e quando voltava a sanidade, ele colocava a culpa na bebida; pedia desculpas, e eu aceitava. Uma vez entramos num acordo que ele nunca mais beberia. Ele nunca mais bebeu. Quando achei que as coisas melhorariam, ele continuou me agredindo sóbrio.

Eu fazia todo o serviço da casa, e ele colocava defeito em tudo que eu fazia. Ele colocava defeito em tudo que eu falava e na forma como eu pensava. Jogava na minha cara que eu não prestava. Em certo momento comentei sobre minha vontade de ser mãe, e ele disse que jamais teria um filho com alguém como eu, que eu teria que melhorar muito. Eu corria atrás de ser essa perfeição que ele queria, mas nunca ficava boa o suficiente. E eu me sentia cada vez pior. Esse meu sentimento de culpa era o que alimentava o ego dele.

Eu tinha um notebook, mas, alegando ciúmes, ele o quebrou inteirinho. Ele me obrigava a dar todas as minhas senhas de e-mail e redes sociais, até tentava recuperar emails antigos que eu não usava mais, só para saber com quem eu tinha contato. Comprei um outro computador alguns meses antes de me separar dele, mas, quando voltei para a casa de minha mãe, não pude trazê-lo por falta de espaço no carro. Ele disse que naquela semana levaria para mim. Passou uma semana, e ele não trouxe. Liguei para saber do meu computador, e ele tinha vendido.

Quando o conheci, eu tinha 24 anos e ele, 39. Ele já tinha sido casado duas vezes e tinha três filhos, dois deles adolescentes, que vieram morar com a gente um tempo depois. Esse fato fez com que as agressões muitas vezes acontecessem de forma mais sutil. Quando ele me agredia, eu começava a chorar, mas ele me mandava calar a boca para que seus filhos não ouvissem. E eu obedecia. Ele dizia que eu tinha que limpar toda a bagunça dos filhos dele. Muitas vezes eu não aceitava, pois não cabia a mim. Mas isso era só mais um motivo para agressões.

Eu prestei vestibular e passei. Ao invés de me parabenizar pela conquista, ele ficou nervoso, pois eu teria contato com outras pessoas. Quando as aulas começaram, por ser um curso integral, ele ia almoçar comigo todo dia na universidade e ficava até as aulas recomeçarem. Tudo isso para eu não ficar de papo com ninguém durante o almoço. Ele tinha ciúme até das meninas que me cumprimentavam.

Com algumas matérias do meu curso, descobri que violência não é só a física, pois existe a psicológica também. E, muitas vezes, a mulher é vítima e não se dá conta disso pois está muito ocupada se culpando por tudo de ruim que existe no relacionamento. Isso me levou a pesquisar mais sobre relacionamentos abusivos, mas sem que ele visse, é claro. Eu dava um jeito de não deixar rastros no histórico porque, se ele descobrisse, não sei do que seria capaz.

Depois de muito ler e pesquisar sobre, achei um vídeo da Patty falando sobre misoginia, e tudo se encaixou. Criei um e-mail fake e mandei um e-mail pra ela contando tudo o que estava acontecendo comigo, e ela me respondeu. Naquele momento, percebi que não estava sozinha, e isso me deu forças para sair da situação em que me encontrava.



domingo, 19 de abril de 2015

Sobre mulheres rachando a conta

Muito se fala sobre o quanto mulheres procuram homens bem sucedidos, que têm carro, que podem pagar uma conta de restaurante. O que raramente se fala é nos processos sociais que mantêm as mulheres em situação de fragilidade e insegurança.

Há alguns dias li um excelente texto que falava sobre os riscos que uma mulher corre ao andar sozinha à noite. Não tem como negar que, por mais que homens também sejam vítimas de violência, o nível de crueldade dos crimes cometidos contra mulheres é sempre maior.

O pessoal adora mencionar o Champinha para argumentar a favor da redução da maioridade penal, mas acho que nunca vi alguma reflexão sobre o fator misógino no crime cometido por ele. O sujeito sequestra um casal, mata o homem com um tiro na cabeça, mas mantém a moça como escrava sexual por cinco dias até decidir matá-la a facadas. Sério que ninguém percebeu a diferença na brutalidade empregada contra as duas vítimas?

Eu sei que é muito pesado falar nisso. Mas a verdade é que o mundo está cheio de predadores de mulheres. Homens misóginos, que acham divertido torturar mulheres, que sentem especial satisfação com o sofrimento feminino.  

Homem, acompanhe as mulheres, principalmente à noite e de madrugada. Se tiver carro, o ideal é levá-la
em casa. Se não, acompanhar até o estacionamento, ponto de ônibus, táxi ou metrô é sempre uma boa ideia. Você nunca sabe quando uma mulher que você ama pode ser vítima dum crime brutal e, acredite, os predadores estão sempre de olho.

Quando compartilhei o texto da Iara, mencionei que minha opinião sobre mulheres rachando a conta com homens seguia a mesma linha dessa questão. Muita gente não entendeu a relação que estabeleci, por isso resolvi escrever um texto esclarecendo.

Mulheres trabalham mais e ganham menos no mundo todo. Segundo a última estimativa da UN Women, mulheres são responsáveis por 66% do trabalho do mundo, mas recebem apenas 10% da receita e têm apenas 1%  das propriedades. Ou seja, nós somos uma classe cuja mão de obra é explorada.

maioria dos homens acredita que a mulher deve ser responsável pelos afazeres domésticos, incluindo cuidar de crianças. No Brasil, o salário de homens é em média 30% mais alto, e eles também têm mais chances de chegar a cargos de poder. Mesmo assim, tem gente defendendo que a mulher deve rachar a conta de restaurante e motel meio a meio. E eu não vejo como isso pode ser libertador.

Sabe, se eu fosse rica e estivesse namorando um estoquista de supermercado, não ia fazer questão de rachar a conta com ele só porque isso é o "certo". Mas homens acham perfeitamente normal rachar a conta com mulheres que ganham às vezes menos que 1/4 do salário deles. E ainda querem que elas façam o serviço doméstico sozinhas.

O que eu quero dizer é que mulheres não ganham menos porque querem, do mesmo jeito que não são alvos de violência cruel porque querem. É claro que existem mulheres que têm medo de dirigir e coisas do tipo, mas tenho certeza de que qualquer pessoa vai preferir ser independente se tiver condições. Nós feministas, muitas vezes, temos uma tendência a buscar essa independência de forma bastante contundente. Mas nós temos que lembrar sempre que nós não estamos seguras na rua à noite por causa duma doença social chamada misoginia, e não porque somos frágeis e covardes. Do mesmo jeito que não temos tantos recursos financeiros para pagar metade duma conta porque nossa força de trabalho é menos valorizada, e não porque somos vagabundas interesseiras. Nós não estamos em condição de igualdade na sociedade, e não vai ser pagar metade da conta do motel que vai impedir o homem de publicar o vídeo íntimo na internet quando quiser se vingar.  

domingo, 25 de janeiro de 2015

Uma terrível história de "manspreading"

Toda mulher tem uma ideia do quanto é desagradável sentar ao lado de homem com as pernas abertas. Eles podem ser encontrados em qualquer lugar onde haja homens sentados: salas de espera, bancos públicos; mas o lugar onde certamente os encontraremos é no transporte coletivo.

Pouco tempo após ter começado a andar de ônibus sozinha na adolescência, comecei a topar com esses homens em trabalho de parto. Aquilo já me incomodava muito, mas o que eu não sabia é que essa postura espaçosa tem a ver com privilégio masculino

Campanha do metrô de Nova Iorque
Acontece que, no reino animal, aquele que quer exercer dominância procura ocupar mais espaço. Espaço físico mesmo; o animal se estica, se abre, se esparrama. Essa linguagem corporal está relacionada à postura psíquica de dominância, o que, como sabemos, faz parte da socialização dos machos humanos.

Dentre os muitos momentos desagradáveis que já vivi por conta do manspreading, o mais marcante
aconteceu comigo há alguns anos. Era sábado à tarde, e eu voltava duma aula de francês na USP. O ônibus subia a Teodoro Sampaio, e eu já suportava um homem grande roçando minha perna havia algum tempo, quando resolvi sair do lado dele e tomar outro assento. Como havia um espaço vago na frente, eu me sentei ali mesmo. Qual minha surpresa ao ouvir o sujeito sussurrar: "Racista, deveria ser esfaqueada. Some de perto de mim".

Eu nem havia reparado que o elemento era negro. Mas foi mais fácil pra ele pensar que eu estava incomodada com a cor de sua pele que com seu privilégio masculino. O absurdo da violência contra a mulher é a naturalidade com a qual ela se dá. O desgraçado me ameaçou, injuriou e caluniou dentro dum ônibus porque eu ousei não aceitar a postura de dominância dele passivamente.

Infelizmente esse é apenas um exemplo de como homens se apropriam do espaço público e o tornam desconfortável para as mulheres. O assédio de rua e a constante possibilidade de estupro são alguns exemplos de outros atos violentos que nos restringem. É importante que estejamos sempre cientes das questões de gênero envolvidas nos momentos mais prosaicos do cotidiano, pois, como disse Gloria Steinem: "A verdade vai te libertar. Mas antes vai te irritar".