sábado, 26 de dezembro de 2015

Tentando ensinar professoras/es

Há algumas semanas, minha colega Paula, que trabalha comigo no projeto EMMA - Estudos sobre a Mulher na Arte-Ciência da EACH - USP, me convidou para dar uma palestra numa escola pública da periferia de São Paulo. Uma amiga de Paula, professora da escola, pedira sua ajuda devido a dois eventos de violência de gênero. 

Num deles, uma garota havia aceitado ficar com um garoto (idades desconhecidas), o que levou os amigos do garoto a acreditarem que a menina deveria ficar com eles também. Tal situação levou a menina a ser vítima de assédio pesado na hora do recreio, quando os garotos a perseguiam. 

A outra situação foi algo como um revenge porn (Pornô de vingança). Uma garota tirou uma foto íntima, mandou para um garoto, e ele decidiu espalhar a foto para todos os colegas. O grupo de meninos começou a assediar a menina por conta disso. Não se sabe se o garoto em questão desejava se vingar da garota ou se ele simplesmente queria se auto-afirmar diante dos colegas; o fato é que houve um desrespeito à intimidade dela.

Os professores e professoras da escola não souberam lidar com essas situações, tendo inclusive quem insinuasse que a culpa era das meninas. Com base nesse cenário deprimente, Paula e eu preparamos uma palestra para trazer algum conhecimento básico sobre questões de gênero a essa turma de docentes.

Eu preparei primeiro um power point sobre cultura do estupro, mas, quando mostrei para Paula, ela disse que a turma não faria conexão daqueles conceitos com o que acontecia na escola. Então eu ofereci uma outra apresentação introdutória que utilizara em fevereiro numa aula sobre gênero dum curso de verão. Era uma apresentação curta porque eu dividia três horas de aula com mais três colegas e, extremamente básica porque, de quatro dias do curso, apenas um era sobre gênero.

Combinamos então que Paula começaria a palestra introduzindo conceitos básicos como sexo, gênero e orientação sexual, para preparar o terreno para a parte mais dura, que é violência contra a mulher.

Assim que chegamos, fomos bem recebidas pela coordenadora, que agradeceu bastante por nossa presença.
Mas, logo quando ela estava nos apresentando, explicando a nossa presença na escola, ela comentou os dois casos de violência, e era possível ouvir risadas entre os professores e professoras. Na hora eu fiquei boquiaberta e disse para Paula que eu fazia questão de comentar os casos no momento de minha apresentação.  

Quando a Paula começou a expor seu conteúdo, uma moça que não parava de tagarelar resolveu interromper dizendo que, para ela, o corpo feminino se encaixa com o masculino. Então eu levantei para responder, porque tenho experiência em falar sobre sexo. Expliquei que a mulher tem clitóris e que existem outros tipos de sexo, como oral e anal, por exemplo. Também falei sobre como seria fazer sexo com uma travesti, por exemplo, que tem pênis num corpo feminino.
Então eu fui tomar uma água e, quando voltei, havia um senhor cristão reclamando, falando que Deus tinha feito o homem e a mulher com um propósito. Eu pedi para não falar sobre religião, ele falou que não era religião, era "Deus". Eu falei que Deus é religião, e teve gente que falou que não é (?).
Sempre fico surpresa com essa dificuldade cultural brasileira de se entender que "Deus" não é um assunto universalmente aceito. Tanto porque não é toda religião que adota o conceito de Deus, como porque essa conduta desconsidera a possibilidade da não-religião também. Ciência e religião são assuntos conceitualmente separados, pois a ciência exige o método científico, e a religião, não.
Então o namorado da professora que convidou a gente interveio. Claro que precisava ser um homem para conseguir algum respeito naquele momento... Ele falou que a escola deve ser laica e coisas do tipo.
O senhor, que mais tarde eu soube ser pastor, parou e finalmente a Paula conseguiu dar toda a parte dela.

Como a Paula falou sobre orientação sexual, uma mulher falou que os jovens estavam ficando "confusos" por se falar muito em homossexualidade. Claro, porque a heterossexualidade compulsória de sempre nunca deixou ninguém confuso, não é mesmo?

Depois eu entrei, acho que já na segunda hora. Comecei comentando o caso da menina que foi assediada por ter ficado com um garoto da sala:

"Em que mundo cabe uma ideia dessas? A menina fica com um e é obrigada a ficar com a turma toda? Imagine que eu ficasse com um cara, e ele me 'liberasse' para todos os amigos dele? Onde eles aprenderam uma coisa dessas? Isso é um grave problema de educação, porque não veio junto com o pênis".

A sala ficou no maior silêncio. *shifts unconfortably* Quando cheguei ao lance da virgindade feminina, o pastor se mandou.

Confesso que eu pego pesado mesmo, pois já me antecipo para comentários estúpidos. Por exemplo, quando falei sobre o estupro de oficiais nas forças armadas, já comentei sobre o fato de que o serviço militar é obrigatório para os homens porque homens assim decidiram. E quando mostrei o corpo feminino numa propaganda, já pontuei que se ela não aceitasse fazer o trabalho, seria tratada como anti-profissional e perderia vários trabalhos.

Então, no final, tivemos as atrocidades, as quais vou comentar separadamente. A mesma mulher que falou sobre o quanto os jovens estavam "confusos" por se falar em direitos LGBT, soltou a seguinte pérola: "Ah, mas a gente tem que pensar que estupro é errado de qualquer forma".
Eu não sei em que contar a história do estupro como violência de gênero prejudica o caso dos homens estuprados, mas sempre tem alguém pra dizer isso. Eu expliquei para ela que 97% das vítimas adultas de estupro são mulheres e que a maioria dos pedófilos são homens, mas não adiantou.
Aí veio outra: "Não concordo com essa 'linha' que vocês estão passando porque parece que homem nenhum presta e coloca como se feminismo fosse melhor que machismo"

Claro que ao ter ouvido uma barbaridade dessas, eu a interrompi para explicar os conceitos de machismo e feminismo. Então ela foi mega afrontosa:
"Ai, posso terminar de falar? Porque você não deixa ninguém dar a opinião" Eu: "É que você falou uma coisa errada, e eu preciso corrigir".
Sabe, eu só contei a história do estupro como algo culturalmente intrínseco, não dei minha opinião pessoal. Só abordei conceitos, alguns até muito básicos. Se ela ficou tão incomodada, creio que o problema esteja na própria história.

Eu expliquei então o que era machismo, sexismo, misoginia e feminismo. Expliquei que o movimento pelos direitos das mulheres tem um nome, o que não acontece com o movimentos dos direitos dos negros, por exemplo. Foi até legal porque rolaram uns comentários do tipo "duh, não é a mesma coisa" no resto da turma.
Daí outra professora falou: "Tem que tomar cuidado com essa moda agora, porque muita menina usa shortinho para sensualizar, depois os meninos passam a mão". 
Então eu respondi: "O errado é os meninos passarem a mão, não as meninas usarem shorts".
Professora: "Ah, mas ela usam pra chamar atenção". Eu: "Como você sabe?" Professora: "Pelo jeito delas". Eu: "Olha, eu sempre usei short, nunca foi pra homem ver". Nada adiantou, a mulher continuou insistindo que sabia das motivações das garotas por algum poder sobrenatural dela. Eu ia continuar provocando indefinidamente (fiz uma lacaniana de quatro anos), mas a Paula interrompeu e citou a questão da socialização feminina e o quanto isso influencia na construção de corpo das meninas.

Depois fiquei sabendo que a moça do "encaixa" lá no começo havia perguntado se nós somos lésbicas e se depilamos as axilas. Prioridades. Ela não parava com os comentários do tipo "mas toda mulher quer ter um corpo daquele, é bonito mesmo", "mas homem também e estuprado", "mulher também dá em cima de mulher", "mulher também gosta de homem bonito"... Como disse a Paula, ela é uma "defensora dos macho oprimido".

Minha experiência estudando questões de gênero me ensinou que cada grupo oprimido enfrenta certos conjuntos de frases de efeito desqualificador. "Mas também tem mulher que" e "mas também tem homem que" são as versões "não sou racista, mas" do mundo do feminismo. A pessoa puxa a exceção quando a gente está falando de regra; regras que vêm da estatística, uma ciência exata. Qual a intenção de quem faz esse tipo de comentário? É óbvio que é relativizar a violência contra a mulher e tratar como se não fosse algo que precisa de um atendimento específico. Nós fomos convidadas para dar a palestra porque meninas haviam sido agredidas por meninos, e docentes não souberam lidar com isso. E, a julgar por esses comentários, vão continuar não sabendo por muito tempo, porque realmente não querem aprender. É uma questão de caráter mesmo.

Pelo menos a coordenadora agradeceu nossa ida até lá, e o diretor deu um presentinho. Teve gente que apertou minha mão, teve gente que me abraçou e agradeceu pela palestra. Se pelo menos metade da turma repensar suas ações, já podemos dizer que concluímos a missão com sucesso.